AMAZONIA. A MAGIA DE VIVER.

Este é um blog para uma viagem até o infinito de nós mesmos. Cada capítulo é um reencontro com a aventura de viver, uma aventura igual para todos nós. Apenas os caminhos são diferentes. O blog reproduz o texto do livro "A Magia de Viver", de Miguel Arcanjo Terra.Boa viagem,capítulo por capítulo.

quinta-feira, 12 de março de 2009

1. ENTRAR NAS PRÓPRIAS SOMBRAS PARA VER A LUZ.

Um Côndor em Macchupicchu passa soberano e eterno sobre todas as dores dos homens.
O Côndor e as dores passam, desde sempre. Meu espírito também, agora eu sei.
Já era tempo de aprender um pouco dessa leveza.
Tantas vezes deixei de andar. É fácil.
Difícil é andar sem tocar a terra.
Somado o tempo passado, presente e futuro --- que, afinal não existem --- eu diria que sou um velho. Com pleno direito de ir embora para o lugar onde sempre estive.
Que lugar é esse?
O colibri que voa entre as flores, esquecido de si mesmo, sabe de que lugar se trata.
A coruja pousada numa sombra da noite também sabe.
As borboletas têm o mapa desse lugar desenhado em suas asas, mas não há na existência humana a necessária leveza para decifrar.
E toda filosofia é vã e não livra o homem de seu pesadelo.
Para escapar, é preciso a coragem de morrer um pouco e entrar nas próprias sombras.
Nas sombras é que fica o mais íntimo dos céus, aquele onde os deuses moram.
Nas sombras fica a essência divina, que os adultos sempre afastam das crianças.
Posso dizer isso agora, sem medo que debochem de mim.
Afinal, são muito tristes as almas que têm o riso escancarado.
Elas faziam me sentir uma pobre lagarta no que parecia o fim do meu mundo.
Mas, certa noite, eu bebi uma porção de luz.
Enfim, saí de minha consciência ordinária e percebi que numa metamorfose eterna a borboleta que voa de uma lagarta vai trocar seu mundo por outros, onde não será mais borboleta.
Um velho sem idade definida a dizer que bebeu luz e a falar de borboletas, ah, tomara que ninguém se implique.
Ouvi tantas vezes que a vida é uma viagem até muitas moradas e que o Reino dos Céus não fica longe de nenhuma delas. Mas, é difícil saber sem fazer a travessia. Eu acho que fiz. O único desconforto que sinto, às vezes, é caminhar com um pé na margem de lá e outro na margem de cá. Mas, eu procuro manter os pés um palmo acima do chão. Ainda não caí. Mas, se cair talvez saiba flutuar.
Eu experimentei a Ahyahuasca.
Existem tratados científicos no mundo inteiro sobre essa bebida. Não consegui ler nenhum deles por inteiro. Tenho a mesma implicância com as bulas de remédios, principalmente nesta minha velhice eterna.
A minha história não é de uma experiência científica. E ela vai parecer às vezes pueril, às vezes adulta. É que no espírito humano coabitam o velho e a criança, o nobre e o plebeu, o santo e o ladrão, o épico e o trivial, o temporâneo e o extemporâneo, a exaltação e a serenidade, o real e o imaginário, o senso e a inépcia, tudo no mesmo lugar e ao mesmo tempo.
Quem pensa que já tem o espírito livre de alguns inquilinos indesejáveis, vai ser surpreendido quando menos esperar.
A avareza: ela pode sair de repente detrás da generosidade, onde passou um tempo escondida. Minha avó materna cantava assim, enquanto recolhia as roupas dos varais:

Dinheiro, dinheiro
Quem esconde um cento, esconde um milheiro
Tão bem escondido como agulha no palheiro
Quem tem, sempre conta o quanto tem
Mas, a ninguém conta que tem
Quem não tem, fica sem
Quem procura, não acha

A luxúria: uma rosa nos cabelos, uma rosa e uma mulher, e então irrompe nessa inocência o maior pecado dos homens e a rosa quedará brutalizada.
A gula: com uma boca imensa, ela sempre está à espera do momento em que vai engolir a temperança.
A aventura do homem é perambular entre o que é de baixo e o que é de cima, como protagonista e espectador, numa história sem começo nem fim, em meio ao imensurável e imprevisível. Dá vertigem pensar.
Com a Ahyahuasca eu senti --- e a referência foi a Via Láctea --- que a vaidade humana no Universo é a maior de todas as insignificâncias.
Desculpem a pretensão nesta minha velhice eterna, mas se eu lidasse com a alma humana, como psicólogo, filósofo ou pastor religioso, uma ilustração da Via Láctea seria meu único instrumento de trabalho. Não me apoiaria nem em velhas escrituras nem nos mais avançados tratados de psicologia ou filosofia. Simplesmente me bastaria uma ilustração da Via Láctea.
E eu perguntaria:
--- Qual a importância que você dá a si mesmo?
Depois da resposta eu apontaria para a Via Láctea e falaria de seus quatorze bilhões de anos, de seus quatrocentos bilhões de estrelas, ainda sem nome, da trintena de milhões de sóis e diria, também, que a Via Láctea é apenas uma das 50 bilhões de galáxias até agora observadas.
Claro que me questionariam.
--- Eu sou mais eu.
Muitas vezes eu também me considerei um microcosmo, embora não passasse de um micróbio, assim como tantos.
Ninguém gosta de ter consciência de sua pequenez. Mas se a tivesse, o homem seria menos vaidoso diante do espelho e menos arrogante na cabeceira da mesa de reuniões, nos palanques e nos púlpitos.
O orgulho é próprio daqueles que pesam sobre a Terra. Se me implico com eles é porque também pesam sobre ombros humildes.
Tomara que um dia eles sintam o peso do corpo e da consciência.
E tomara que os humildes não percam a fé no seu destino de voar como anjos para um lugar de suavidades.
Pairar.
Simplesmente pairar.
Que os humildes sejam crianças a viver no ar, sem medo de altura, pés descalços, acima de todas as pedras.
E que não tenham a tristeza de reencontrar os que pesam sobre a Terra e não voam mais.
Eu queria falar do amor que conheci com a Ayahuasca.
Mas, confesso minha timidez: não sei se minha linguagem está à altura das almas que tiveram nesta vida a coragem de pegar a suavidade em pleno fogo e se transformaram em amor. Ah, esse amor tão incompreendido. Eu tenho guardados alguns versos que escrevi numa noite de insônia, quando tentava reencontrar minha essência, sufocada sob o peso da personalidade. Só os revejo agora para repensar o que é o amor. Nesta minha velhice eterna, espero que me perdoem a criancice.

Amor é flor
Amor é beija-flor
Uma rosa ao acaso busca um olhar
E um olhar perdido encontra uma rosa
Tudo é amor

Uma pipa no céu
Uma criança ao léu
Um vento sem destino
A vida é pó e brinca de ser só
Mas, um fio de esperança está na pipa
Que a esmo dança
Tudo é amor

Noite escura
Alma sem rumo, rua sem fim
Cega é a solidão, o vento é um açoite
Mas, alguém abre a janela e diz: boa noite
Tudo é amor

Enganos, desenganos
Para o coração sofrer basta uma coisa à toa
Se a dor não vai passar, adianta chorar?
Chore
Tudo é amor

É uma casa, é uma mesa
É uma toalha de jantar
Quem é que vai chegar?
O amor é o convidado
Quem é que está a esperar?
O amor que convidou
Tudo é amor

Bem-te-vi, Bem-me-quer
Menina mulher, verso da manhã
Corpo de Sol, alma de chuva
Flor de maçã
Tudo é amor

Banco da praça
O velho e o moço brincam de ser
Sem nada querer
O moço é velho, o velho é moço
E vão embora, vai chover
Tudo é amor
2. A VIDA É UMA VIAGEM
Até o dia em que bebi a Ahyauasca, eu nada sabia de minha velhice eterna.
Nunca dei minha mão pra ninguém ler.
Sempre fui meio encolhido.
Os velhos costumam perder o ponto de partida de uma história. Também perdem o ponto final. Nada garanto sobre o ponto final. O de partida é este: Manaus.
Estava lá como enviado especial do jornal Folha de S. Paulo. Deveria realizar três trabalhos.
O menos importante era a cobertura de um jogo de futebol entre o São Paulo e o Nacional, que acabara de conquistar o bicampeonato amazonense. Uma partida amistosa, de confraternização. Em outro, deveria abordar a condição de incipiência do futebol profissional no Amazonas, onde, entre tantas carências, uma era de bolas oficiais. Fecharia minha pauta numa entrevista com o principal diretor de uma das primeiras empresas multinacionais que chegavam à região.
O jogo seria domingo à tarde. Teria apenas sexta-feira e sábado para entrevistas e informações necessárias aos outros dois trabalhos.
A chegada a Manaus aconteceu quinta-feira à noite. Vim como convidado na delegação do São Paulo. Do aeroporto, num ônibus especial, fomos todos para o Hotel Amazonas, no centro de Manaus, de frente para o Rio Negro. Só depois do jantar, cada um se dirigiu a seu apartamento para desfazer as malas e por as coisas em ordem.
Dividia o apartamento com José Poy, há pouco tempo na função de técnico do São Paulo. Ele entrou na história do clube e do futebol brasileiro como um de seus maiores goleiros, pela elegância, firmeza e disciplina. Veio de Rosário, na Argentina, e vestiu no pleno sentido da palavra a camisa do São Paulo, um clube que teve muitos argentinos em sua história. Sastre compôs um ataque inesquecível com Luisinho, Leônidas, Remo e Teixeirinha. Pelo mesmo ataque, passaram Negri e Albella. Albella, em 81 jogos pelo São Paulo, marcou 47 gols. Era conhecido como El Atômico.
Eu via o futebol como uma repetição amena de batalhas onde Aquiles era atingido no calcanhar pela flecha de Páris. E onde Ajax o substituía para se transformar na Grande Muralha dos gregos e impedir os avanços de Heitor.
Poy, mais que um guerreiro, era um cavalheiro feito nas profundezas de seu ser. Mereceria um poema de Jorge Luis Borges.
Não me sentia cansado para me deitar tão cedo. Quando se ouve o tic-tac de um relógio de pulso é bom levar a alma inquieta para passear. Não eram nem onze horas. Estava um pouco inseguro com a matéria sobre a empresa multinacional. Entrava em campo estranho e não conseguia criar e ordenar perguntas consistentes para desenvolver um trabalho interessante.
Os grilos cantavam em minha cabeça. Alguns já eram bem antigos. Resolvi descer.
--- Vou dar um giro, falei ao Poy.
Ele sorriu:
--- Cuidado.
Queria beber alguma coisa, mas que não fôsse no bar do hotel, onde queixos desamparados pendiam sobre o balcão.
Encontrei logo no primeiro quarteirão um boteco, uma pequena mesa vazia e um cheiro de rio.
Sentei-me, acendi um cigarro e sem pressa de ir a lugar nenhum esperei ser atendido. Mas, quem chegou primeiro à mesa foi uma mulher de uns 30 anos. Ela atravessou todas as sombras do lugar e já bem perto reagiu ao meu olhar arredio com um sorriso.
--- Posso me sentar?
Antes de qualquer resposta, ela puxou uma cadeira sem nenhuma cerimônia e se acomodou.
--- Boa noite. Meu nome é Nunuí.
Escondi-me em mim mesmo, enquanto mais um grilo começava a cantar. Ela, sem perder o sorriso da chegada, continuou:
--- Não se assuste. Nunuí é uma fada muito boazinha aqui da Amazônia.
Meu Deus, pensei, imagine se o Prado me surpreende numa conversa dessa. Quero apresentar o Prado desta história: ele era centro-avante do São Paulo. Dentro de campo, atormentava seus marcadores. Fora de campo, amigos e conhecidos. Quando estava por perto era bom ficar esperto. Seu sorriso maroto anunciava que havia alguma coisa no ar e não eram aviões de carreira, como dizia o Barão de Itararé, pseudônimo de Aparicio Torely, um dos mais geniais humoristas do Brasil no século XX. Faltava ao Prado a sutileza do Barão. O seu senso de humor fazia você rir daquilo que o deixaria com muita raiva se acontecesse com você.
Na mesa do bar, tudo começava a me parecer uma grande tolice.
--- Nunuí é uma fada que cuida da Natureza e dos animais. Minha mãe brincava com ela quando era menina. Dizia que seu rosto era muito lindo, mas um pouco gordinha de corpo. Assim como eu.
Sempre tive disponível para situações incômodas um sorriso falso.
Sorri numa pergunta à toa:
--- Você é de Manaus ou está de passagem, Nu...Nu...?
Seu nome me engasgava.
--- Nunuí, Nunuí. Moro aqui desde menina. Mas, vim de Tefé. Conhece?
--- Não.
--- Sou uma amazona. Trago no sangue e na alma o jeito de ser daquelas índias guerreiras que viveram em Tefé. Você conhece a história?
--- Não me lembro bem.
A boa vontade de ouvir me faltava.
Psicólogos, jornalistas, juízes, padres, pastores religiosos, atendentes e confidentes em geral deveriam merecer um pedacinho de tempo onde a sua audição fosse desativada e então pudessem se entregar aos outros sentidos e se acomodar tranquilamente em um deles: visão, paladar, tato ou olfato. Nunui invadia meu silêncio, a minha audição desativada, e não se importava com isso:
--- Aquelas índias guerreiras atacaram a expedição do espanhol Francisco Orellana. E como se pareciam com as amazonas da mitologia grega, Francisco Orellana batizou o rio com o nome delas. Mas, o seu nome, como é?
Inventei um nome qualquer.
Ela continuou:
--- Esse meu tipo metade índia, metade ibérica, deve ser conseqüência da aventura de alguma jovem amazona com alguém da expedição de Francisco Orellana. Ou desventura. A gente nunca sabe quando o amor é feito de encanto ou desencanto.
Eu já começava a temer aqueles caminhos da noite, onde todos se traem a si mesmos antes que o galo cante três vezes.
--- Meu corpo é de guerreira. Sou floresta e rio.
A extroversão das mulheres sempre me intimidou. Essas almas femininas ousadas, intensas, de janelas escancaradas, nunca me seduziram. Se ela era floresta e rio, seu corpo deveria ser quente e úmido. Em fuga desse pensamento malicioso, gritei para o dono do bar, que não acrescentou uma vírgula à sua indiferença. Talvez porque minha voz saiu pela metade, não me ouviu. Ou quem sabe não me dava mesmo nenhuma importância.
Nunuí me socorreu:
--- Por favor, o senhor pode nos atender?
O dono do bar veio depressa. Pedi uma cerveja e dois copos.
--- Eu não bebo, reagiu Nunuí.
Oferecí um cigarro.
--- Eu não fumo.
Com a voz ainda embargada, perguntei:
--- Se você não bebe nem fuma, o que está fazendo num boteco como este?
--- Caçando. Eu já disse que sou uma amazona.
O seu sorriso me incomodava e, pior, me irritava.
Eu não conseguia disfarçar minha estranheza pela presença e desembaraço daquela mulher à minha mesa. Não era simplesmente uma mulher da noite, que inventa histórias e segredos para contar ao primeiro que chegar e assim justificar seu descaminho. Nunui era um pequeno mistério que vinha das sombras, sem parar no sim nem se desviar do não em que a vida se entremeia. A sua firmeza me inibiu de começo, me enraiveceu até, mas a cerveja já no copo, espumando, me acalmava. Minha voz também voltava a um timbre mais condizente com um homem.
--- Fale mais de Tefé.
--- Tefé dos índios Tupebas. Procuro carregar comigo aquele espírito indomável que não se curvou a Francisco Orellana, Pedro Ursua, Padre Samuel Fritz, Frei André da Costa. Nenhum deles tirou dos Tupebas o sentido de liberdade e de respeito à Natureza. Esses espíritos guerreiros ainda flutuam sobre todas as águas do Amazonas ou brincam com os raios de sol entre as samaumas.
O dono do bar trazia a segunda cerveja e eu já estava num estado de ânimo em que mesmo um rio bravo me pareceria imensamente plácido.
--- É incomum entre as mulheres uma fala assim com certa poesia e impetuosidade nada frívola.
Meu comentário não tirou o sorriso de Nunui do mesmo lugar:
--- É o jeito da floresta e do rio. A floresta e o rio são mansos e quietos até que um estranho se aproxime. Então, se agigantam e rugem, mostram sua força, mas se aquietam assim que o estranho se acomoda.
Maliciosamente perguntei:
--- Por que você veio se sentar à minha mesa?
--- Sou uma caçadora, uma amazona, já disse.
--- Você caça homens?
Ela fechou seu sorriso.
--- Eu caço espíritos.
Mais uma vez me senti embrutecido pela bebida. Sempre acontecia depois da terceira cerveja ou do segundo uísque. Eu me contive e minha voz se escondeu novamente. Ela continuou séria:
--- Os melhores espíritos aqui na Terra andam perdidos na noite à procura da luz. Falo dos músicos, dos poetas, dos solitários, dos que se acham feios, dos que fogem de si mesmos, dos que não dormem porque os pesadelos da vida os atormentam, falo dessas mulheres de todos, mas sem ninguém. Na noite é que a luz se revela. Mas, existem luzes falsas em todos os caminhos e os espíritos se perdem.
--- Sou um deles?
Perguntei com uma expressão forçada de sobriedade. E nos bêbados essa expressão é ridícula.
--- Seu espírito tropeça na escuridão.
--- Como é que você sabe?
--- Eu o segui do hotel até aqui e em nenhum momento senti firmeza em seu espírito. Ele anda disperso e cambaleante.
A que despenhadeiro me levaria essa conversa?
Eu me questionava silenciosamente.
Talvez, já um tanto bêbado, eu capengasse entre mais bobagens do mundo, diante de uma mulher com a razão turva como as águas do Rio Negro. E se ela fosse uma dessas caçadoras de jogadores de futebol, como tantas, que apenas me procurou para tentar uma aproximação com alguém do São Paulo? Ela poderia ter me visto junto com a delegação no aeroporto ou no hotel.
--- Por que eu, Nunuí? Cheguei há pouco, nunca estive em Manaus, nunca nos vimos, por que eu?
Ela sorriu novamente:
--- Porque somos da mesma tribo na Eternidade. Por enquanto, você nada sabe. Mas, vai ficar sabendo.
--- Se somos da mesma tribo, desculpe, mas devo confessar minha estranheza: não me sinto à vontade com você.
--- Claro que não. Quem brinca de esconde-esconde não gosta de ser descoberto. Além do mais, você se esconde muito mal. Foi bem fácil achar você.
--- Como assim?
--- Você deixa sombras por onde passa.
Evitei estender a conversa, mas o conhecimento de Nunuí me impressionava.
Falou dos jesuítas, das guerras entre portugueses e espanhóis e da morte de muitos índios. Lembrou Frei André e seus peregrinos a subirem o Rio Tefé, em fuga.
Mesmo bêbado --- e os bêbados imaginam coisas --- não percebia em Nunui nenhuma insinuação sensual.
Ainda bem. Assim poderia me deitar com Deus e com os anjos me levantar.
Mas, começava a me sentir sem pés nem cabeça diante daquela mulher.
Acabei dizendo meu nome, de onde vinha, o que estava fazendo.
Estranhamente, queria enfatizar minha existência e individualidade. Afinal, era eu mesmo que estava ali à mesa. Procurava afastar uma sensação estranha de desintegração.
O olhar de Nunuí me colocava com um pé em cada canoa, me desequilibrava, me dividia ao meio. Agora, na minha velhice eterna, eu sei que paz de espírito é navegar com plena fé num barco único e sem igual. Mas, naquela noite, eu estava confuso como Teseu, o herói da mitologia grega. Teseu tinha um navio, o Ariadna, feito de pranchas de madeira. Ano após ano no mar, todas as pranchas acabaram trocadas, uma a uma. Teseu e sua tripulação não perceberam que nenhuma das pranchas era mais a mesma. Estavam num navio novo e diferente. Ao mesmo tempo, no estaleiro, todas as peças substituidas foram reaproveitadas. Surgia outro navio, exatamente igual ao Ariadna. E uma questão ficou na eternidade: qual dos dois navios era realmente o Ariadna? Teseu achava que o Ariadna verdadeiro era o seu. O construtor do outro navio discordava. Afinal, todas as peças originais do Ariadna estavam na nova embarcação. Os deuses lavaram as mãos nessa questão e Teseu carregou suas dúvidas por todos os mares.
Eu não sabia em que barco estava diante do olhar de Nunui, que parecia me enfeitiçar.
--- Quando você volta para São Paulo?
--- Na madrugada de segunda-feira.
--- Então, você é meu convidado para um encontro muito especial amanhã à noite.
--- Com quem?
--- Com você mesmo.
Silenciosamente eu me enraivecia. Amaldiçoei a terceira cerveja que me enfraquecera o ânimo. Nunui não deveria ser o que eu pensava, mas apenas outra dessas pessoas que imaginam carregar o arco-iris dentro de si e vêem as demais em preto e branco.
Também, me sentia enredado naquelas velhas armações de livros inconsistentes e autores oportunistas, que fazem do desconhecido um mercado de bugigangas e se esquecem do que está escrito:
A minha casa será chamada casa de oração. Porém, vós a tendes transformado em covil de ladrões.
Ai de vós, condutores de cegos.
--- Amanhã?
A voz de Nunui ressurgia distante dos meus pensamentos. Ela insistiu:
--- Amanhã? Eu passo no hotel no começo da noite e o apanho com meu carro. Não fica longe o lugar pra onde vamos.
Ela se despediu e saiu sem olhar para trás. Eu pedi a conta e fiquei parado na minha perplexidade.
Sim, o dono do bar comentou qualquer coisa sobre aquela mulher. Mas, ah, meu Deus, os bêbados se esquecem das coisas, os velhos também.
Quando voltei para o hotel havia, pelo menos, um fato evidente: os grilos não cantavam mais na minha cabeça.
Não sei se grilo ainda significa desassossego, inquietude, preocupação. Talvez grilo tenha voltado ao seu sentido original de um inseto com a incrível capacidade de produzir um som estridente e de longo alcance apenas com as nervuras de asas tão frágeis, que uma criança esmagaria com um dedo. Talvez os grilos das cabeças de minha geração tivessem a mesma fragilidade. Mas, eram tantos que se tornavam insuportáveis. Surgiram assim os terapeutas especializados em espantar grilos de cabeças onde não havia mais espaços para borboletas, colibris e outras amenidades.
3. O ENCANTO DA ALPÍNIA
Acordei às seis horas e a luz do Sol já atravessava as cortinas. Poy estava no banho. Fiquei à espera, com um gosto na boca de cabo de guarda-chuva. Um velho gosto.
Em menino, quando meus pais imaginavam tempestades e me obrigavam a levar guarda-chuva para a escola, eu mordia o cabo inconformado. Rararamente chovia na ida ou na volta, eu não podia jogar o guarda-chuva fora e ele se transformava numa perna ou num braço a mais para carregar, um apêndice incômodo. Também não poderia esquecer o guarda-chuva em lugar nenhum e meu olhar se envesgava entre aquela atenção boba e as outras coisas do mundo. Cheio de raiva, blasfemava baixinho e mordia o cabo. O guarda-chuva ainda mexe com meu lado obscuro. Velho e guarda-chuva é uma das mais infelizes combinações.
O gosto do cabo sempre me castigou por todas as doses que bebi a mais.
Boca amarga, humor feito de azedumes e, além de entrevistas e fotos por todo o dia, ainda assumira o compromisso à noite. Dane-se o compromisso. Nunca liguei muito para a palavra dada. Só na velhice percebi que palavra é força que fica no ar. E quanto mais fica, mais peso ganha, até que um dia despenca sobre a alma de quem deu e não cumpriu.
Ao sair do banho, Poy me perguntou:
--- Você vai acompanhar o treino esta manhã?
--- Infelizmente, não. Tenho uma entrevista marcada.
--- É sobre o futebol aqui do Amazonas?
--- Ainda não. É sobre os planos de grande empresa multinacional, que está se instalando na região.
--- Boa sorte.
Descemos juntos para o café. Logo depois, tomei um taxi e segui para a sede da empresa. Cheguei depressa. Não ficava longe do hotel.
Não imaginava encontrar no Amazonas tanto luxo e ostentação a se estender pelo chão e a subir pelas paredes. Depois de pequena espera na recepção, a secretária do diretor, com sua beleza e sensualidade desfeitas pela excessiva formalidade, veio ao meu encontro, apresentou-se e me conduziu até uma imensa sala de reuniões. Falou que logo seria atendido e me ofereceu a primeira cadeira próxima da cabeceira da longa mesa no centro da sala. Pediu licença, saiu e quase em seguida entrou na sala uma servente com a bandeija de água e café. Enquanto me servia, eu me encantava com os grandes vasos de cerâmica Marajoara dispersos pela sala, ainda fora de lugar, com plantas e flores que não conhecia. Então, o diretor, antecedido por sua secretária, que lhe abriu as portas, adentrou a sala com a imponência e o sorriso de quem lidava à vontade com dólares. Tive medo de me atrapalhar com a Rolleiflex, que aprendi a manejar com as orientações dos meus amigos fotógrafos do jornal. Não liberaram verba para que um deles me acompanhasse e minhas desculpas foram aceitas por tomar o lugar de um profissional. Não havia alternativa.
Enquanto procurava em minhas anotações as perguntas básicas para o inicio da entrevista, uma mulher passou rapidamente por nós e sem ligar para o que acontecia em volta, começou a mexer nos vasos. O diretor se adiantou à minha curiosidade:
--- Quero plantas da Amazônia em minha sala. Contratei uma decoradora que é uma das maiores especialistas em plantas nativas que se adaptam em ambientes fechados. Como você está vendo, espaço é o que não falta por aqui.
Uma flor vermelha se destacava num canto da sala, exuberante.
--- Que flor maravilhosa.
Eu estava realmente admirado.
A decoradora interrompeu seu trabalho para responder orgulhosa:
--- É nossa Alpinia. Uma das flores mais lindas da Amazônia.
Com o seu sorriso inconfundível, ali estava Nunuí, a me reconhecer e festejar minha presença:
--- Que coincidência. Bom dia. Tudo bem? Não se esqueça do nosso compromisso.
Eu me retorci no meu batido sorriso falso.
--- Não me esqueci.
--- Eu passo no hotel para apanhar você.
--- Está bem.
Nunui continuou seu trabalho e o diretor, surpreso, me perguntou:
--- Vocês se conhecem?
--- Desde ontem à noite.
--- Você é rápido no gatilho, hem?
Não sorri meu sorriso falso.
Acabara de dar minha palavra pela segunda vez. Eu sempre falhei só na primeira. A segunda nunca, porque só se brinca com o destino uma vez. O medo de algum castigo também passava entre meus pensamentos. A viagem de volta seria no mesmo Douglas DC-3. Na vinda, todos os meus pecados viajaram comigo.
Eu gostaria de ter a frieza do então muito jovem goleiro Raul Plasman, o reserva de Suli. No avião e no gol, ele era imperturbável. Nem os seus cabelos se desmanchavam quando entrava em campo em alguns jogos amistosos.
A gentileza das aeromoças no Douglas DC-3 me lembrava Filhas de Maria com piedade da minha alma. E o olhar bondoso do zagueiro central Jurandir parecia perdoar todos os meus pecados. Jurandir acabara de conquistar o bicampeonato mundial de futebol com a seleção brasileira, mas não perdera o seu jeito tranqüilo e compassivo de um bom caipira da cidade de Marília.
Eu caíra no erro de falar abertamente de meu medo de voar. Prado se divertia com isso em voz alta dentro do avião:
--- Se o avião balançar, não adianta rezar. Tem um Pagão neste avião e onde tem Pagão Deus não aparece.
Ele se referia ao centroavante Pagão, que tinha vindo do Santos para jogar na armação de jogo do São Paulo. Sua refinada técnica lhe permitia ocupar essa nova posição, ele que foi considerado por Pelé e Coutinho como o maior centroavante de todos os tempos do futebol brasileiro.
As informações do comandante sobre a altitude do vôo eu considerava como uma referência sobre o fundo do Inferno onde despencam os pecadores. E Prado se aproveitava disso para mais provocações:
--- Atenção, senhores passageiros: mais vale uma aeromoça na mão do que duas voando. Aeromoça na mão balança, mas não cai.
Aqueles dois motores do DC-3, pendurados nas alturas, pareciam inseguros como eu. A minha fé girava em hélices fora do meu controle. Enfim, o DC-3, Prado e o demônio iriam judiar novamente de mim na volta e eu precisava estar em paz com minha consciência, com Nunuí e com Deus.
Quanto à entrevista, o que eu posso dizer com a plena sabedoria de minha velhice eterna é que nada de bom pode vir de uma multinacional.
4. A NOITE É A PORTA DE ENTRADA DOS MISTÉRIOS DO MUNDO
Passava um pouco das sete horas da noite quando um Fusca Pé de Boi parou na entrada do hotel. Sob as luzes, a cor daquele modelo Volkswagen, recentemente lançado, era de um azul igual à das fitas que nas missas de domingo jovens Filhas de Maria colocavam sobre seus vestidos brancos, nos recatados tempos em que implícita e solenemente anunciavam à Paróquia que ainda eram virgens.
As virgens --- jovens ou não, mártires ou heroínas --- encantavam os poetas. Logo me lembrei de Gonçalves Dias e de tantos que as namoraram em seus versos.O mistério das Virgens era o que mais se sondava nos velhos tempos.
As jovens eram vistas como versos a passar. Para elas, o Sol e a Lua de poemas e canções.
Para as que não eram mais jovens, meio Sol, meia Lua e os poetas preferiam lidar com as sombras.
Nessas sombras é que eu estava à espera de Nunuí fazia tempo. Não queria que ela me chamasse na recepção do hotel nem ser visto a seu lado. Assim que reconheci seu carro, corri em sua direção, entrei depressa, fechei a porta, balbuciei um cumprimento e não precisei, felizmente, puxar conversa fiada. Nunuí já estava a falar:
--- Nós vamos até o bairro de Aparecida. É aqui pertinho. Conhece?
--- Não. Mas, sei que é um dos bairros mais antigos de Manaus.
--- Verdade. Aparecida surgiu no Século XVII. Manaus ainda era uma vila.
As luzes amarelas das ruas, penduradas numa imensa escuridão, me angustiavam um pouco. Lembravam velas das procissões do Senhor Morto, que acompanhei quando menino e coroinha numa Paróquia de São Miguel Arcanjo.
--- Em Aparecida a gente deixa o carro e segue pelo Igarapé.
--- Canoa à noite, nessa escuridão?
--- Não se preocupe. A canoa é motorizada e o canoeiro experiente.
--- E os jacarés?
Nunuí sorriu aquele sorriso que me incomodava e falou:
--- Eu prefiro que você pense em Vitória-Régia. Ela é linda sob a luz do luar ou dos faroletes.
Depois de um suspiro que me pareceu forçado, perguntou:
--- Sabe a razão do nome Vitória Régia?
--- Sei. É uma homenagem à Rainha Victória, da Inglaterra.
--- Sabe por que a homenagem?
--- Não.
--- Nem eu. Também não me importa. Eu só queria que você tivesse a sorte de ver o desabrochar das flores da Vitória-Régia. Isso só acontece à noite. As flores nascem brancas, lindas. A Vitória Régia é a estrela das águas. Conhece a sua história?
A pergunta cairia bem para uma criança de seis anos. E assim me senti.
--- Naiá era uma índia muito linda. Esperava que a Lua a escolhesse para ser uma estrela no céu. Todas as noites ela caminhava à beira de um grande lago, à espera da Lua. Mas, ela não aparecia. Naiá nem dormia mais. Então, certa noite, a Lua que ela sempre procurou no céu desceu refletida até as águas claras do grande lago. Fascinada, Naiá se atirou de braços abertos ao seu encontro e seu corpo desapareceu em águas profundas. Naiá não sabia nadar. Aquele sacrifício comoveu a Lua. Tanto que ela fez de Naiá uma estrela diferente. Não uma estrela do céu, mas das águas. A Vitória Régia. Quando o Sol aparece, suas pétalas ficam rosadas e depois roxas. Mas, à noite, elas voltam a ser brancas e a estrela das águas brilha sob o luar.
Enfim, o silêncio, depois de uns quinze minutos de viagem. Um estranho silêncio engolia o Fusca Pé de Boi, já parado e desligado às margens de um igarapé, à espera do canoeiro, que deveria estar longe, porque nada se ouvia.
A noite criava uma divisão densa entre o mundo visível e o invisível.
Adoraria que Nunuí falasse alguma coisa. Mas, ela também sucumbira àquele silêncio, um peso assustador e quase insuportável sobre nossa inconsistência.
Dei graças a Deus pelo som de motor que nos sacudiu. Som e luzes de faroletes atravessavam a escuridão, enquanto eu continuava inquieto naquele mundo desconhecido.
--- É Raimundo chegando, falou Nunuí.
Assim que ele desligou o motor, já beirando a margem, ficou no ar o seu canto:

A lua está saindo
Mãe, mãe
As sete estrelas estão chorando
Mãe, mãe
Por se acharem desamparadas
Mãe, mãe

Era cantiga de uma nota só, repetida, triste, lembrava sombras, noites cansadas, certa desolação. Descemos até o ponto de embarque, enquanto Raimundo mudava da cantiga para uma canção de grande sucesso na época, gravada por Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano, um grupo vocal extraordinário.

Uirapuru, ô, Uirapuru
Tens no canto as mágoas do meu coração.

A voz de Raimundo batia na escuridão e reverberava magnífica naquele silêncio mágico.
Eu viajei, então, em pensamento até o Uirapuru, de Villa-Lobos, um poema sinfônico de rara beleza. Sentia a história e a melodia dentro de mim, com uma clareza intensa.
O Uirapuru, considerado o Deus do Amor entre os indios, transforma-se num formoso guerreiro, encantador, desejado pelas mais lindas jovens da aldeia.
Enciumado, outro indio o alveja mortalmente com uma flecha.
Então, Uirapuru volta a ser um pássaro. Mas, agora invisível.
Apenas seu canto se ouve no silêncio da floresta.
A magia da Amazônia, quando pega de jeito, desestrutura todos os lugares comuns de uma existência rotineira, onde ninguém muda o compasso.
Villa-Lobos, seduzido por tantos sons mágicos, compôs a suíte A Floresta do Amazonas, obra que revela o deslumbramento de quem conhece a mais rica e vasta criação da Natureza.
Na Amazônia de Villa-Lobos os pássaros cantam em solos de flauta e o arco do violoncelo corta o silêncio com o peso e a austeridade de todas as sombras. As notas do piano pingam como gotas de chuva que ficam nas folhas depois da tempestade e que caem de uma vez com o vento ou de uma em uma, suavemente. Na harpa correm os pequenos riachos que vão se unir num grande rio, o Amazonas, que me levou com seu encantamento a rabiscar estes versos:

Ele vem lá dos Andes
Pequenino a brincar
Num folguedo inocente
Ele sonha ser um mar
E ele cresce
Ainda a sonhar
Um velho sonho
De ser um mar
Abre claros na mata
Um gigante a passar
Mas, o Amazonas é doce
Jamais pode ser um mar.

Mas por que continuava a cantar o canoeiro?
--- Raimundo está espantando visagens, falou Nunuí, que lia meus pensamentos.
--- Visagens???
--- Assombração, fantasma, alma do outro mundo, essas coisas.
O medo me arrepiava um pouco.
--- Medo é como gripe. Alguém passa pra gente.
Entre as baforadas de seu cachimbo, João, meu padrinho de batismo, definia assim com uma frase curta as coisas do mundo.
--- A ignorância é a mãe da superstição.
Essa frase eu repeti para Nunuí, querendo mostrar uma falsa coragem. Ela reagiu de pronto:
--- O mundo é mais misterioso que o fogo do seu isqueiro.
Eu acabara de acender um cigarro.
--- E nada de fumar aonde nós vamos. Também espero que você não tenha bebido.
Nunca bebí antes das oito horas da noite. Não sei por quê. Quanto ao cigarro, já havia suportado reuniões enfadonhas de mais de três horas sem acender nenhum. Portanto, nada tinha a responder.
Nunuí continuava a me incomodar:
--- Já ouviu falar da Cobra-Grande?
Dei uma longa tragada no cigarro. Precisava de paciência. Estava aonde não queria e me questionava por raramente dizer não em minha vida.
O sim, para mim, significava existir. Só mesmo nesta velhice tenho a convicção quase plena de que o homem e o mundo melhoram pelo não que se diz.
Nunuí continuou:
--- A Cobra-Grande, assim que fica bem maior do que uma sucuriju ou jibóia abandona a floresta e vai para o rio. É assustadoramente gigantesca. Deixa por onde passa sulcos tão profundos que se transformam em igarapés. No rio ou nos poções, a Cobra Grande se acomoda bem no fundo. Mas, à noite, sobe à superfície. Seus olhos de caçadora parecem grandes tochas de fogo, enquanto ela desliza com seu corpo imenso em perseguição implacável às suas presas. À noite, no meio do rio, o mais valente dos pescadores treme de medo.
Senti certo alívio com a chamada de Raimundo, já impaciente com a espera:
--- Minha gente: vamos embora! Temos água que não acaba mais pela frente.
Saímos pelo igarapé.
O som do motor cortava o silêncio e as luzes dos faroletes não afastavam a escuridão.
Não demorou muito e entramos num igapó, a mata alagada pela cheia.
Os sons da noite cresceram, carregados de mistério. Um deles era de muita pungência.
--- É o canto do Urutau, a Mãe da Lua, falou Nunuí.
--- Parece um grito de dor.
--- Dor e solidão. O urutau vive só e quase nunca é visto.
Raimundo virou a direção da canoa, desligou o motor e deixou que ela flutuasse silenciosamente até bem perto da margem. Pediu silêncio e apontou para a ponta de um galho seco iluminado pelo luar. No alto da árvore, o Urutau era uma sombra azul. Virado na direção da Lua, seu canto entristecia a noite. Imóvel como o galho seco em que pousava assim se protegia. De repente, se aquietou. O silêncio que ficou doeu em toda a imensidão. Antes que doesse mais, o urutau cantou novamente. E mais apavorante ficou seu canto, porque Raimundo cochichava que ali estava uma mãe que chorava a morte do filho:

Meu filho foi, foi, foi. Ai...
Meu filho foi, foi, foi. Ai...

Nunuí percebeu meu abatimento e falou com Raimundo:
--- Conta pra ele a história do Boto, só pra espantar a tristeza.
--- Eu já conheço essa história, reagi.
--- O Raimundo conta diferente.
Ele ligou o motor da canoa, manobrou, foi em frente e começou a cantar:

Mãezinha, foi o boto
Eu juro que foi
Paizinho, foi o boto
Eu juro que foi
Ele veio de mansinho
Foi naquele igarapé
Juro que tinha fé
Mas caí em tentação
Esse peixe encantado
Cheio de sedução
No olhar tinha feitiço
Balançou meu coração
Mãezinha foi o boto
Eu juro que foi
Paizinho, foi o boto
Eu juro que foi
Não quero ser mal falada
Eu sou moça enganada

Em que baile você vai
Em que baile você vai
Cuidado, menina
Cuidado, menina
Moço bonito
Nunca visto no salão
Não pega chapéu na mão
Nunca tira da cabeça
Na cabeça tem um vão
O sinal da embromação
Cuidado, menina
Cuidado, menina
Quem avisa amigo é
Quem avisa amigo é
Moça que dança com ele
Acaba no igarapé



5. A LUZ DA SIMPLICIDADE FICA NO OLHAR
Era uma casa grande, avarandada, que se erguia sobre palafitas, às margens do igapó. Parecia boiar. Luzes amarelas dos lampiões de querosene passavam pelas janelas abertas. Silhuetas de homens e mulheres eram sombras animadas, que andavam, riam, falavam.
Eu temia que, dentro daquela casa, em pontos ocultos pela escuridão, aranhas armadeiras esperassem nos vãos das paredes de madeira ou nas vigas de sustentação que alguém distraído ou desavisado apoiasse as mãos. A sua picada chegaria como a dor mais profunda da noite. Como em tantos casos, a aranha não fugiria. Em pé, com o tamanho da palma da mão, atacaria novamente com a mesma fúria. Então, a respiração seria bloqueada, o coração bateria forte, sacundindo o peito, e talvez acontecesse a mais inglória das mortes, que é aquela provocada pela picada de um inseto. Nenhuma referência épica haveria no velório. O que dizer de Hércules, vestido com pele de leão, clava na mão, músculos por todo o corpo, morto por uma picada de aranha? Ou de Teseu, vítima de um inseto, depois de enfrentar o Minotauro? Ou de Jasão, agonizante, a anunciar aos Argonautas que desistia de buscar o Velo de Ouro porque um mosquito o abatera? Era o que eu temia com todo o meu orgulho.
Da canoa até a varanda, pulei desajeitado, tropecei na escuridão. Raimundo riu do meu desequilíbrio. Lépido, deixou a canoa e trouxe Nunuí pelas mãos. Senti a lerdeza do meu corpo. Talvez viesse do peso da mente. Meu fardo era volumoso e dia a dia eu somava mais pensamentos. Nenhum deixei no meio do caminho, porque me enredava neles para existir. Estava embaraçado em novas conjeturas quando tropecei.
Ainda na varanda, um homem com a consistência que faltava às sombras, um pouco baixo, um pouco gordo, aproximou-se com um sorriso, um vasto sorriso, um risco branco na noite.
--- Benvindos!
Nunuí se adiantou:
--- Boa noite, mestre!
--- Quando alguém me chama de mestre, eu fico sem graça, moça. Eu só tive a sorte de conhecer o que é bom. E aprendi com meu verdadeiro Mestre a não deixar o que é bom ficar ruim.
--- Mas, só um Mestre sabe chamar e lidar com a força da Ayahuasca.
Eu estava perdido no meio da conversa e esfregava as mãos nervosamente.
--- O moço sabe a que veio?
Nunuí me puxou pelo braço:
--- Quero apresentar ao senhor...
--- Já sei, já sei, o jornalista de São Paulo.
O aperto de mão daquele homem mexeu com meu corpo dos pés à cabeça. E seu sorriso me cativou.
--- O senhor está entre nós como jornalista, curioso ou como um espírito em desassossego?
Nunui e Raimundo riram bobamente, assim achei, enquanto respondia:
--- Na verdade, eu não sei.
--- Se o senhor não sabe, então é um espírito em desassossego que chegou por aqui.
Não gostei quando Nunuí e Raimundo riram novamente.
Mas, meus ombros foram tocados com tanta ternura que se abrandou minha implicância.
Assim mesmo, entrei na sala com um pé atrás.
Homens e mulheres, mais morenos sob a luz dos lampiões, rostos vincados, gente simples, não havia nenhum fio de cabelo loiro por ali e nenhum par de olhos verdes. Mas, graça e beleza amparavam gestos, sorrisos, olhares. Se existiam os feios, eu já os amava, uma surpreendente presença do amor à primeira vista e bonitos me pareciam.
O que acontecia comigo?
Na minha velhice posso responder: era uma luz que vinha do olhar.Naquele tempo, respondendo, disse Jesus: Graças te dou a ti, Pai, senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e prudentes, e as revelastes aos simples e pequeninos. (Mateus XI: 25)
Eu fui um menino coroinha de balançar turíbulo com incenso nas missas de domingo. E muitas coisas ficaram na minha cabeça. Uma imagem do Coração de Jesus, acima de uma mesa arrumada como altar, me levava de volta à simplicidade de que me desviei em adulto com meu orgulho. Aquela criança que vivia com as mãos incensadas, sentia que outras mãos estavam amorosamente estendidas ali, à sua espera.
Não questionei meus sentimentos. Eles me faziam bem.
Um pote de barro sobre a mesa e muitos copos em volta atiçaram minha sede. Estava com a boca seca. Pedi água a Nunuí, mas ela foi buscar em outro lugar, sem dizer o que havia no pote.
Aos poucos, todos se acomodaram: os mais velhos em cadeiras simples, os outros em esteiras estendidas na sala.
De pé, diante da mesa improvisada em altar, entre as luzes e sombras dos lampiões, ganhava uma imponência extraordinária aquele homem que me recebera sorridente na varanda. Ele trazia para a sala o denso silêncio e os mistérios da floresta em volta.
--- Vai começar a sessão, cochichou Nunuí.
--- Que sessão?
--- Psiu...
Meu Deus – pensei - o que me espera? Nunuí pouco falara do que se tratava porque pouco me importei em perguntar. Considerava tudo como mais uma das banalidades que acrescentava em minha vida. Em nada me aprofundei quando ela me disse que algumas pessoas se reuniam, bebiam um chá diferente, preparado com plantas da Amazônia, e esperavam visões e ensinamentos. O meu menosprezo era tanto que nem me lembrava onde e quando ouvira essas coisas. Existem momentos na vida em que se vai apenas pela razão de não agüentar ficar. Era o meu caso.
E agora?
Agora, seja o que Deus quiser. E me lembrei de minha mãe.
Ela sempre foi proteção constante em minha vida de menino e nos meus medos de homem feito.
O grande mistério é que a mãe que nos ampara é a mesma do divã do analista.
Escapei do divã.
Minha mãe superava sua fragilidade pela fé em Deus e todos os santos. Meu pai não. Era homem de reza nenhuma e de pouco ficar em casa. Buscava em lugares distantes o sustento da família, num tempo em que vinte quilômetros ficavam muito longe, porque não havia comunicação e se imaginava um mundo estranho e hostil. Minha mãe rezava dia e noite para que nada de ruim acontecesse. E quando meu pai surgia no portão, com o feliz sorriso da volta, trazendo coisas para casa, minha mãe balbuciava: Graças a Deus.
Meu nariz carregou cheiro de vela muito tempo pela vida.
Se eu me desencaminhei?
Quem sabe?
Na dúvida seguí velho ensinamento de um mestre Zen: Não passe onde Deus não está. Mas onde Ele está, passe depressa.
Não queria falar tanto de mim mesmo. Esse é mais um mal dos velhos. Mas, é o único modo que eles têm de provar que ainda estão vivos na cadeira de balanço.
Eu vivi momentos sem nenhuma fé que me tirasse das rotas de fuga e me reconduzisse, sem medo e sem culpa, àqueles espaços onde cantam os passarinhos e as crianças brincam.
As portas que abria eram de novas prisões onde eu entrava. Aumentava meu círculo de fogo e a vida de verdade ficava além.
Sofria por não ser.
E ser é a grande questão e razão da existência.
Naquela noite, na floresta, eu repensava minha vida, feita de inércia. Inércia é a definição dos físicos para a impossibilidade de mudança, por não se parar quando em movimento e não se mover quando parado. E assim as coisas se repetem e as pessoas e os destinos, per seculae seculorum.
Saí dessas reflexões quando a primeira mulher caminhou em direção daquele homem que me fascinara e que, no entanto, nem sabia seu nome. Sem pressa, passos e gestos comedidos, talvez fosse a mais velha de todas. Outras a seguiram. Nunuí era a última e, às vezes, virava-se e sorria para mim.
Então, ele abriu a torneira do pote e acompanhou com o olhar a porção de bebida que caia no copo e as reações da mulher à sua frente.
Soube muito tempo depois que havia uma quantidade certa para cada espírito.
Na minha vez, atrás de Raimundo, ainda não sabia que tipo de bebida me esperava nem a porção de acordo com o meu espírito. Mas, tinha a plena certeza de que a hóstia de minha Primeira Comunhão seria incomparável em leveza e sabor com aquele líquido denso e verde escuro, que me arrepiou quando vi. Não havia nele nenhuma transparência. Impenetrável. O olhar apenas o sondava como um mistério.
Procurei um pouco de compaixão no olhar daquele homem quando me serviu. Torci para que minha porção não fosse tanta. Fechei os olhos, senti um cheiro incomparável, não, não era de água de azeitonas em conserva, não sei definir, até hoje não sei, mas meu estômago se inquietou.
Voltei para meu lugar sem olhar para o copo. Não queria ver o que iria beber.

6. UM ESTRONDO NO SILÊNCIO
Quietos, muito quietos, quase todos cabisbaixos, cada um em seu lugar esperava a primeira palavra de ordem daquele homem que dirigia a sessão. Ela chegou. Um estrondo naquele silêncio. Ah, quem sabe se eu soubesse seu nome não estaria tão inquieto. É pelo nome que a gente se sente mais à vontade com alguém que se conhece. Não era a primeira vez que eu perdia esse pequeno detalhe e me arrependia depois. Eu me habituara a perguntar e anotar os nomes apenas nas entrevistas, uma triste evidência de que se as pessoas não fossem objetos importantes de minha profissão de jornalista seriam simplesmente objetos anônimos, pela falta de importância.
--- Bebamos em nome do Senhor!
Raimundo, ao meu lado, cochichou:
--- Respire fundo e beba de uma vez.
Com ar até o limite máximo de meus pulmões, prendi a respiração e de um gole só esvaziei o copo.
Meu estômago enjoado, sempre enjoado, iria sucumbir se Raimundo não me estendesse uma bala de hortelã, com um comentário e um sorriso:
--- O ruim já fica bom.
Depois de um bom tempo em silêncio, enquanto já começava a me arrepender de estar ali, a voz daquele homem, ah, meu Deus, por que não perguntei seu nome? Talvez ele fosse de todos os tempos e seu nome naquele momento, mesmo que eu soubesse, não tivesse nenhuma importância.
O fato é que sua voz sacudiu meus pensamentos:
--- Onde falta luz, falta ordem. Onde falta luz, o destino de um se embaraça no do outro e é um nó que ninguém desata. Para cada um assumir seu destino é preciso ser só. Primeiro ser só, para depois ser dos outros. A solidão faz parte da responsabilidade de estar no mundo. A luz vem para clarear o destino de cada um. Mas, como é que a gente sabe que foi tocado pela luz? Pela própria luz. Ela já vai chegar. Fiquem com ela em paz e amor.
Um zumbido veio da floresta. Metálico. Penetrante. A impressão que tive foi de uma cigarra feita de alumínio a cantar. O enjôo aumentou. Aquela cigarra me dava arrepios, tanto que levei a mão à boca e me encolhi num estranho frio. Então, uma réstia de luz, vinda de uma altura sem fim, me tocou o meio da testa, um pouco acima dos olhos, e ali ficou vibrando suavemente.
--- Todos têm luz?
A pergunta provocou uma resposta em côro:
--- Sim, senhor.
Eu também respondí, num ato de entrega, não apenas para acompanhar os demais.
Com os olhos abertos ou fechados eu via aquele fio de luz que me tocava. Busquei as alturas de onde vinha e não alcancei. Ele me ligava a um estado de espírito que ficava além de tudo que já havia sentido.
Em plena rendição ao que haveria de vir, sem mais resistências, o meu estomago se aquietou.
O que haveria de vir era o vir de onde viemos?
Ri do jogo de palavras que montei bobamente.
Um grilo cantou.
Ri novamente.
Imaginei entre seus olhos a mesma luz que eu via. Assim, ele poderia sonhar que era um vagalume. Então, me lembrei de uma crônica que escrevera há algum tempo, na verdade uma fábula:
“Era uma vez um grilo com um cri-cri forte, vasto, imenso, glorioso.
O ego do grilo era do mesmo tamanho do cri-cri. Um ego forte, vasto, imenso, glorioso. Enfim, um ego cri-cri.
Pelos vales, montanhas, rios, lagos e riachos, campos e caminhos, o ego do grilo ecoava. Era imensa a sua vaidade pelo cri-cri de longo alcance.
Cri-cri.
Com tamanha glória, o grilo jamais teve grilos na cabeça.
Nunca precisou de análise nem de meditação transcendental nem de ioga nem de zen nem da dança dos dervixes.
O grilo pulava cercas. Mas, não era um problema. Tratava-se de um mecanismo de fuga recomendado pelos especialistas em tédio a dois. Não importa se dois do mesmo sexo ou de sexos diferenes.
Não tinha, portanto, o grilo nenhum outro grilo que o incomodasse. Era absolutamente seguro de si. E chatíssimo por isso mesmo.
Cri-cri.
Mas, certa noite, pinta um vagalume no pedaço. Rabinho com luz azul turquesa, brilhante como as estrelas com que se misturava, mas com a diferença de que ia e vinha mais depressa do que elas.
Homens, mulheres e crianças, fascinados, correram atrás do vagalume a gritar: pega, olha, que maravilha.
A admiração despertada pelo vagalume deixou o grilo enrijecido de ciúme. De que adiantava cantar e alcançar distâncias incríveis se uma criatura, em absoluto silêncio, chamava a atenção de todos? De que adiantava saltar tanto? Cantava e saltava no escuro e no escuro ficava.
Cri-cri.
O grilo, então, imaginou um plano para atrair o vagalume. Iria propor uma troca: o seu cri-cri pelo rabinho com luz azul turquesa.
Aproximou-se manhosamente do vagalume:
--- Cri-cri. Você não quer trocar seu rabinho que ninguém vê além daquele morrinho pelo meu cri-cri que atravessa montanhas?
O vagalume respondeu sorrindo:
--- Não quero tanto.
--- Mas você não tem grandes ambições?
--- Apenas passar pela noite e iluminar alguns amigos.
--- Deixa de ser bobo. Troca, troca.
O vagalume era mais envolvido com estrelas, inocente, poeta, um bichinho suave da noite. Claro que não se importava com a troca. Era desprendido das coisas. Também não queria deixar o grilo infeliz. Afinal, o que é uma simples luzinha azul turquesa com tantas estrelas no céu?
--- Está bem, está bem, eu troco.
Mas, havia muita maldade nas intenções do grilo. Queria a luzinha sem perder o cri-cri. Fingiu inocência:
--- Acho melhor você me passar primeiro sua luzinha. Não vou conseguir tirar meu cri-cri no escuro. Preciso de luz. Tudo bem?
--- Tudo bem, concordou o vagalume em sua santa ingenuidade.
E lá se foi a luzinha para o rabo do grilo e lá se foi o grilo aos saltos, em fuga. O vagalume ficou às escuras, perdido, sem cri-cri, sem ver nada. Então, chorou. Não pela luzinha azul turquesa perdida. Mas, pelo mal que não sabia existir.
O grilo, com a chegada da televisão colorida, conseguiu um bom contrato para anunciar com o seu cri-cri luminoso o começo e o fim dos intervalos comerciais. Cri-cri.
O vagalume, ninguém sabe.
Moral da história: O ambicioso furta a luz alheia e deixa o mundo mais escuro.”
Divagava assim tranqüilo, em paz, quando fui sacudido em meu sossego pelo assobio afiado de um vento estranho. Entrei em rodopio, com o claro sentimento de que a hora e o lugar não eram próprios para coisas pueris.
Respeitosamente, me encolhi em mim mesmo.
O silêncio era arrasador.
Ouvi uma voz solta no ar, que parecia girar em torno de minha cabeça.
Não dava para definir se era de homem ou de mulher, porque as palavras chegavam reverberadas, pareciam vibrar num imenso espaço oco. Mas, assim mesmo entendi a mensagem: --- Tente compreender a Natureza. Não desvie a sua atenção para coisas sem importância.
A voz continuou:
--- As vibrações da Natureza tocam o corpo e o espírito. Mas, o corpo e o espírito precisam de boa afinação. É assim que chega a força superior, a força do amor, que dá aos sentidos o poder de perceber o Universo numa gota de orvalho e toda a eternidade numa pedra do caminho. Esta é uma noite para ver, ouvir, sentir e saber que tudo se une pelo amor. E o amor está para ser descoberto como o mais poderoso dos mistérios.
Pouco a pouco, ganhou forma diante de mim uma magnífica Samauma.
Minha altura de menos de um metro e oitenta centímetros não alcançava nem a metade do porte de suas raízes, as sapopembas. Acima da terra, elas sustentavam o grande tronco, que se erguia com mais de quarenta metros até a copa.
Quis desfazer essa visão com um gesto real: com o nós dos dedos da mão direita simulei bater nas sapopembas. Então, surpreendentemente, senti o impacto do toque e as sapopembas reverberaram o som melodioso de um tambor. Era o som redondo e afinado de uma nota musical. Forte de inicio, ele se estendeu feito eco pela floresta, suavemente. Bati mais vezes nas sapopembas e outras notas musicais ecoaram e se misturaram em cores no ar. Eram apenas cinco notas, cada uma com sua cor, que se harmonizavam numa doce e comovente composição musical, que chegava num vento manso. Eu as associei logo às cinco velhas senhoras da primitiva escala musical japonesa.
Inebriado pela música, com a cabeça caída entre as mãos, não iria pressentir ninguém a olhar para mim se o último e singelo acorde não se perdesse no silêncio da floresta.
Abri os olhos e procurei o dirigente da sessão. Não o encontrei. Nem Nunuí, nem Raimundo, nem a casa onde deveriam estar todos.
O zumbido nos meus ouvidos era de mil cigarras. Aturdido, sacudi a cabeça, esfreguei os olhos e pasmo vi à minha frente a beleza, suavidade e nobreza de uma mulher que parecia ter saído de um quadro de Katsushiha Hokusai, pela leveza de suas vestes e de seus gestos. Contemplei-a extasiado, ao mesmo tempo em que ouvia a voz de Nunui sussurada em meus ouvidos, embora ela não estivesse nem ao meu lado nem atrás.
--- É a Princesa Sama, cochichou Nunuí. Você bateu nas sapopembas da Samauma e ela atendeu. Não é sempre assim. Indios, caboclos ou sertanejos também chegam atrás de plumas para travesseiros ou de cascas da Samauma para fazer canoas. Mas, então quem aparece é o Curupira, o defensor da floresta, e os invasores correm de medo. O Curupira é assustador. A Princesa Sama só atende quando o chamado é do espírito.
Eu estava perdido entre dois mundos. Um era real, outro imaginário. Tinha plena consciência dos dois e temia que num passo em falso despencasse nos abismos sem saída da loucura.
Um pesado silêncio então me assustava.
--- Estou confuso e com um pouco de medo, pensei.
Esperava que Nunuí lesse meus pensamentos de onde estivesse.
Senti no ar aquele seu sorriso que me incomodava e sua voz chegou misteriosamente:
--- É assim mesmo. O som das cigarras atordoa as rochas.
--- Não sei a história que vivo nem em que tempo estou.
Na miragem Nunuí era uma delicada figura que me surpreendia pelo seu modo de falar.
--- O tempo é como o relâmpago: só um instante. A história também é como um relâmpago: não se pega com as mãos. Quando acaba a Primavera, os pássaros se calam tristes. Mas, a Primavera volta, e eles cantam. Quem conta o tempo perde o tempo.
Falei de minha perplexidade:
--- Não sei se sou uma sombra a falar com outras sombras.
--- Estamos no reino dos espíritos. E os espíritos são sombras coloridas.
--- Mas como é que eu posso aceitar logicamente o fato de uma princesa trocar o seu reinado pelo vão do tronco de uma árvore, na solidão desta floresta?
--- A lógica é do pensamento. A visão é do espírito. A Princesa Sama é a soberana espiritual de toda esta floresta e do céu acima dela. Princesa Sama.
--- Por que o nome Sama?
--- Por uma questão de respeito. Sama em japonês significa senhora. É o tratamento usado para as divindades.
Princesa Sama. De Samauma.
Entreguei-me sem mais resistências ao zumbido metálico das cigarras invisíveis, que se misturava aos sussurros de Nunuí:
--- A Princesa Sama veio da terra dos origamis.
Não me perdoava, numa parte de meus pensamentos, por estar enredado numa história infantil, para crianças, não para um homem do meu tamanho.
--- Meu Deus, o que a arte japonesa dos origamis tem a ver com esta floresta?
--- Pergunte aos índios de tantas tribos aqui do Amazonas. A arte milenar do origami está nos trabalhos de dobradura que eles fazem para representar os animais.
Precisava tanto voltar à minha consciência ordinária, do sim e do não, do certo e errado, do claro e escuro, enquanto me sentia quase em pânico numa viagem de avião, sem avião.
--- Na eternidade todos somos contemporâneos, continuou Nunuí. O Deus Sol dos índios Caiapós ou Gaviões é o mesmo Deus Sol dos cultos japoneses. Os índios caminham na sua direção de manhã para curar suas doenças. Os japoneses dançam em agradecimento às boas colheitas. O Sol é a Divindade além do tempo que os homens contam.
--- Só sei viver dentro deste tempo.
--- Então, você não está vivendo. Considere a Samauma como a Árvore da Vida, uma das escadas para o céu. Igual àquela Figueira que você conhece.
A voz sussurrada de Nunuí sumiu. A visão da Princesa se desfez.
Num vento que chegava do Norte, fui levado até a Figueira onde parava nas manhãs em que decidia deixar o carro na garagem e seguir a pé até o ponto de táxi. Exuberante, entre as sombras e luzes de um bairro da Zona Sul de São Paulo, ela conversou comigo.
Não posso explicar mesmo na minha velhice eterna a existência de uma Princesa na floresta amazônica nem a linguagem de uma Figueira encantada. Talvez, tudo se revele um dia. Eu só posso dizer que ela me questionou:
--- Por que você tem tanta pressa?
Eu sabia naquele exato momento da pergunta o quanto eu havia corrido e pretendia correr atrás da vida.
--- Quanto mais você persegue a vida, mais distante a vida fica.
Sorri novamente com o jogo de palavras. Eu sempre achei aquela Figueira muito simpática.
Tanto que lhe batia três vezes com o nós dos dedos quando passava por ela.
--- Sabe há quanto tempo estou no mesmo lugar, sem dar um passo sequer atrás da vida?
Nunca pensara numa coisa dessas.
--- Estou aqui há mais de sessenta anos. E a vida tem passado por mim dia e noite, todo esse tempo, sem que eu precise correr atrás. Mesmo que insensatamente um homem corra pra lá e pra cá, continua parado no tempo, um tempo eterno, onde ele já é, não importa o que queira ser ou ter. A luz do Sol pousa sobre mim como os passarinhos. O luar. A chuva. E passada a chuva, passa tanta coisa. Se você me perguntar como vai ser o dia de amanhã, eu responderei que não existe amanhã para quem pára no tempo e se entrega à vida. Sabe a causa de toda infelicidade e desacerto dos homens? A falta de coragem de parar e esperar, com a firmeza de uma árvore. Deus aprecia as sombras do que é imóvel, porque ali Ele se move.
Enlevado pela beleza da Figueira, pela música de sua voz, com muita hesitação comecei a questionar aquela alucinação pueril. Então, um convite:
--- Reze comigo.
E da Figueira ouvi a oração do Pai Nosso, numa voz que me pegava a alma e a retorcia, entre tantos arrependimentos por ter corrido à toa no tempo e me desviado de mim mesmo.
--- Eu nunca vi Deus, mãe.
Essa era a questão que eu levantava nos meus tempos de coroinha.
--- Mas, Deus sempre vê você.
Eu gostava muito quando minha mãe tentava desfazer minhas dúvidas de criança nessas noites em que uma chuva de verão batia no telhado e a luz azul dos relâmpagos atravessava as frestas das janelas.
Sob o barulho da chuva, às vezes fraco, às vezes forte, em mudanças repentinas, ela me ensinava a falar com o Deus que eu nunca vi:
O pão nosso de cada dia nos dai hoje...
Esse era o verso onde em criança, nas minhas manhãs com cheiro de café, eu esperava que Deus estivesse a me ver. Dele era o pão.
Do fundo de minha alma, bem do fundo, outra figura se projetou à minha frente. Com os olhos abertos ou fechados, via um homem maior e mais esguio do que eu. Ele vestia uma túnica branca, solta sobre o corpo de alto a baixo, sem nenhuma costura. Parecia ter vindo de uma caminhada pela praia, onde eu agora estava sem mais me lembrar da Figueira.
O longo manto cobria seus pés sobre a areia, entre os seichos.
Na mão direita, um cajado igual ao dos pastores de tempos remotos.
Nenhum sorriso nem no olhar.
Mas era tocante a sua compaixão e delicadeza, mesmo sob um semblante que causava certo medo, pela firmeza.
A barba espessa e castanha, da cor dos longos cabelos, dava-lhe um ar maduro, mas onde não faltava inocência. Tinha uma beleza incomum.
Suavemente, com o cajado, ele escreveu na areia: Amor. E seu olhar pousado sobre mim acompanhou a mensagem que me fez chorar.
Até ali eu não sabia muito bem o que era Amor. Mais tarde eu saberia com o Apóstolo Paulo:

Ainda que eu falasse línguas,
a dos Homens e a dos Anjos,
se não tivesse o amor,
seria como um sino retumbante
ou um címbalo estridente.
Ainda que eu tivesse o dom da profecia,
o conhecimento de todos os mistérios
e de toda a ciência,
Ainda que eu tivesse fé para remover montanhas,
se eu não tivesse o amor, eu nada seria.
Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos pobres,
Ainda que entregasse meu corpo às chamas,
se não tivesse amor, nada disso adiantaria.
O amor é paciente, o amor é prestativo.
Não é invejoso, nada ostenta, não se incha de orgulho.
Nada faz de inconveniente,
não procura seu próprio interesse,
não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça,
mas se regozija com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.
As profecias desaparecerão, as línguas, a ciência,
pois nosso conhecimento é limitado
e limitada também é a nossa profecia.
Mas, quando vier a perfeição, o que é limitado desaparecerá.
Quando eu era criança, falava como criança,
pensava como criança, raciocinava como criança.
Depois que me tornei adulto,
deixei o que era próprio de criança.
Agora, vemos como em espelho e de maneira confusa.
Mas, depois veremos face a face.
Agora, meu conhecimento é limitado,
mas depois conhecerei como sou conhecido.
Agora, portanto, permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor.
A maior delas, porém, é o amor.

Sempre em plena suavidade, se desfez no azul do mar aquela imagem que esteve à minha frente num daqueles raros e breves momentos que abrangem toda a existência.
Ah, como eu gostaria de afirmar que aquele era o Mar da Galiléia.
Ah, como eu gostaria de negar que aquela visão era apenas mais uma dessas armações do inconsciente, que brinca de esconde-esconde entre a verdade e a ilusão. Fico quieto, para que não zombem da história nem do Homem que vi.
Mas, não deixei de questionar o dirigente da sessão.
E lá estava ele com seu olhar irradiando pequenas espirais de luz, uma em seguida à outra, numa fileira ordenada e ininterrupta que chegava até mim. Então, eu senti bem no fundo de minha alma que ali não estava um homem comum. Mas, um mestre. E o chamei assim:
--- Mestre!
--- Sim, senhor.
--- O senhor me dá licença de fazer uma pergunta?
--- Sim, senhor.
--- Qual a diferença entre miração ou miragem e a realidade?
--- É bom saber que nem toda a miração é realidade. Mas, a realidade passa pela miração para ser apanhada. A cada um de nós cabe uma porção, de acordo com o grau de recordação. Aqui a gente só recorda. Ninguém descobre nada de novo.
Continuei a revelar minha inquietação:
--- Estou a ver e ouvir tantas coisas, mas tudo vem muito rápido, não consigo acompanhar em plena razão.
--- A razão não acompanha o que é do espírito. A razão é do tempo de agora e é devagar. Fique esperto com seu espírito. O que é do espírito vem de longe e vem depressa.
--- Estou me sentindo uma criança desarvorada.
--- Desarvorada é gente grande. Criança, não. Quase toda essa gente grande que pensa que é sabida já está morta sem saber. Morrer para saber é outra história. E é a vida. Só espero que ninguém pergunte agora porque os papagaios falam tanto se não entendem o que falam.
Todos riram à vontade, enquanto eu recolhia a porção de acanhamento que me cabia e me encolhia no meu canto.
7. MARIPOSA MENSAGEIRA
Não queria saber as horas. Não me importava com o tempo. Olhei em volta. Todos estavam fechados em si mesmos. Estendi o olhar até Nunuí e ela, mesmo de olhos fechados, sorriu em resposta.
Nesse instante, uma mariposa imensa pousou sobre minha mão esquerda, largada sobre o joelho. Sempre tive profunda repugnância por insetos, às vezes de modo quase histérico e pouco masculino. Mas, sem saber por que, fiquei a contemplar calmamente as asas da mariposa, abertas sobre minha mão.
Lembrei-me do bom humor do mestre sobre passarinhos e borboletas e sorri.
Ao mesmo tempo, um zumbido nos meus ouvidos --- o velho sinal --- anunciava nova viagem ao desconhecido. Embarquei corajosamente sem nenhuma bagagem. Não queria levar coisas velhas.
Chegava até meus pensamentos a mensagem de que toda a história do mundo é contada nas asas de uma mariposa.
Meu espírito se aquietou para ver.
Ali em minhas mãos estava a representação da metamorfose, da existência da vida após a morte de uma lagarta.
O símbolo da transformação de um casulo preso à terra, que se torna uma lagarta e, enfim, se liberta para um vôo acima de todas as coisas.
As mariposas carregam os mesmos mistérios das borboletas.
A diferença é que elas são as mensageiras da noite.
Os Maias acreditavam que velhas almas se disfarçavam de mariposas para visitar a Terra.
As mariposas também trazem a mensagem de nossa fragilidade diante da impermanência, do nosso medo de aceitar que tudo é efêmero dentro da eternidade.
Num instante, as asas das mariposas se agigantaram sob meus olhos. E se transformaram no palco fantástico de um episódio da história humana.
A luz de um Sol magnífico iluminava milhares de homens que iam e viam a puxar sobre carros de madeira gigantescos blocos de pedra e que subiam e desciam rampas em espiral. Corpos fortes e morenos, com roupas que cobriam apenas a cintura, movimentavam-se como formigas de correição, em trânsito ordenado e constante.
Tudo acontecia na margem oeste de um grande rio.
Eu já sabia qual era a história, que dona Mirthes, minha professora no Ginásio, contava com muita solenidade.
E lá estava ela, entre minhas visões. Trinta anos depois eu a revia com a mesma aparência e a mesma roupa dos tempos de ginásio. Magra e alta. Seu olhar era de uma professora de história perdida num mundo antigo. Suas mãos, longas e finas, tateavam com muita preguiça o tempo real.
Com grande concentração de espírito, já que idéias, sentimentos e pensamentos passavam numa sequência rápida e imprevisível, estava a redescobrir a construção das pirâmides de Gizé. Nada seria capaz de acompanhar se não fosse o extraordinário estado de lucidez que a Ayahuasca provocava.
Gizé. A cidade do Egito na margem do rio Nilo, junto ao Cairo. Talvez o único lugar deste mundo onde o tempo ainda existe. Mas, morto.
Três faraós --- Queóps, seu filho Quéfren e o neto Miquelinos --- deixaram seus nomes nas mais esplendorosas maravilhas do mundo, antes de navegarem em seus barcos pelo céu até o Rei Sol.
--- Nos barcos só cabiam seus espíritos.
Era a voz de dona Mirthes a reverberar em meus ouvidos, com uma sonoridade que me dava tontura e náusea. Tapei a boca com as mãos para não vomitar. Dona Mirthes continuou:
--- Partiram como as aves que não semeiam, não segam, nem recolhem provisões nos celeiros. Ficaram as pirâmides, a maior delas com 160 metros de altura, construída para Queóps. Ficaram os templos funerários, os túmulos dos sacerdotes. Ficaram as câmaras mortuárias de Queóps e da rainha. Mas, onde estarão o corpo de Queóps e os tesouros enterrados com ele? Foram levados pelos ladrões.
Nesta minha velhice eterna, não consigo me esquecer daquela mariposa na minha mão, a fazer de meus pensamentos redemoinhos dentro do tempo.
--- Nenhum rei do Egito escapou dos ladrões após a morte, a não ser Tutancamon, o mais rico de todos.
Não suportava ver nem ouvir mais dona Mirthes, que parecia estar num mundo antigo, numa migração após a morte. De sua boca retesada saia um fluxo de palavras sibilantes, que me fizeram vomitar escandalosamente:
--- A tumba de Tutancamon. Seus tesouros. As mais belas descobertas do Vale dos Reis. À frente de Lord Carnavon e Howard Carter, eis que surge um extenso muro de ouro maciço. O muro era apenas uma das faces de gigantesca e preciosa urna. Dentro, outra urna brilhava. E havia mais duas. Entre tantos tesouros, um fascinante monumento de ouro dedicado a quatro deusas protetoras, que pareciam pedir misericórdia aos homens. Sob o sol de um fim de tarde, o Vale dos Reis se aquietava na tristeza de uma luz estranha, nunca vista. Num dos ataúdes brilhava o corpo do jovem faraó esculpido em ouro. Ao lado, flores secas deixadas pela jovem esposa, tão jovem quanto ele, que morrera aos 18 anos de idade. Aquelas flores, colhidas há milênios, marcavam a tristeza da passagem dos tempos.
A voz de dona Mirthes, em meio a um grande silêncio, continuava a me assombrar.
--- A morte prematura de Lord Carnavon, vítima de uma picada de mosquito, e outras mortes confirmaram a maldição inscrita no tumulo de Tutancamon: A morte virá com asas ligeiras para quem perturbar o descanso do faraó.
E ela lembrou uma passagem do Evangelho, antes de sumir de vista e depois de deixar um nó no meu estômago:
Não queirais entesourar para vós tesouros na Terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e onde os ladrões os desenterram e roubam.
Mas entesourai para vós tesouros no céu, onde não os consomem a ferrugem nem a traça, e onde os ladrões não o desenterram nem roubam. Porque onde está o tesouro, aí está também o teu coração
Senti que estava de volta à sala. A mariposa continuava em minhas mãos e não me incomodava. Então, me entreguei a reflexões.
Por que esse desacerto dos homens?
Dizem lá nos picos do Himalaia que os homens criaram com seus pensamentos uma entidade irreal, o Ego, que se apossou do lugar de Deus.
E a vida dói onde o Ego está.
Se Deus um dia gritasse do alto: Quem está aí?
Cada um de nós responderia: Eu.
Então, como um velho sufi, cada um de nós ouviria: Se você está aí, Eu não posso estar nesse mesmo lugar.
O desencontro dos homens aparece onde Deus não está.
E onde Deus não está o amor não existe.
Novamente, a mariposa se engrandeceu sob meus olhos. Entre tantas figuras em suas asas eu tinha certeza de que entraria num outro mundo se fixasse minha atenção em uma delas. Preferi uma leve contemplação. Então suas asas começaram a se agitar em tamanha velocidade que produziam um som de matracas que antecediam as ladainhas em antigas procissões. Havia uma voz a cantar as ladainhas: seca, farfalhada. Era da mariposa e eu me encolhi arrepiado de espanto para ouvir o que vinha do lado obscuro de minha mente.
O amor é assim como eu. Se preso pelas mãos, pode ser esmagado e morto.
O amor é assim como eu. Só pousa onde pode voar.
O amor é assim como eu. Se não for livre será apenas igual às folhas mortas.
O amor é assim como eu. É uma mensagem que voa.
O amor é assim como eu. Não é o que você vê, mas o que se revela.
Adorar é o amor em vão.
Prazer é o amor em pedaços.
O amor é assim como eu. Bate suas asas na liberdade de si mesmo e do próximo.
--- Mas, onde fica o amor?
Meu Deus, a pergunta era de dona Mirthes, novamente a freqüentar minhas visões.
Ela mesma respondeu:
--- No coração.
E de sua boca assustadoramente cadavérica, ouvi numa história mais ou menos assim:
“Há muito tempo atrás, lá longe, na França (era o ano de 1.647, em Autun), nasceu uma menina e nem fizeram festa porque já havia muita gente na casa. Batizaram a menina com o nome de uma flor: Margarida. E o seu nome por inteiro ficou assim no registro da Igreja e do Cartório: Margarida Maria Alacoque. Aos oito anos, a menina Margarida perdeu o pai e logo depois a irmã mais velha. Com a morte dos dois, teve de cuidar dos outros irmãos e da mãe, que estava muito doente. Mas, não havia dinheiro e Margarida era muito pequena para saber trabalhar e ganhar. O que fazer? Todos se mudaram para uma casa onde moravam algumas tias de Margarida, já um pouco velhas e um tanto implicantes.
A mãe de Margarida morreu, os irmãos se distanciaram, e depois de alguns anos ela foi acolhida no convento das Irmãs da Visitação, que consideravam o Coração de Jesus como a nossa casa neste mundo.
Um dia, Jesus apareceu a Margarida. Primeiro, a abraçou. Depois, deixou que ela encostasse a cabeça no seu peito. Assim, Margarida descobriu que o Amor era um sentimento sagrado que ficava bem ali no coração. E Jesus lhe pediu que contasse a todos o que aprendera.
Jesus apareceu outra vez a Margarida. Pediu uma festa para celebrar o Amor no coração.
No convento, começaram a dizer que Margarida estava inventando coisas. Talvez até estivesse louca. Chamaram um padre que entendia muito desses fatos estranhos. O nome dele era Claudio de La Colombiere. Ele foi saber o que estava acontecendo. Nada havia de errado com Margarida. E o padre se tornou o primeiro devoto do Sagrado Coração de Jesus. Maria Margarida Alacoque faleceu em 17 de outubro de l.690. Tinha apenas 43 anos. Em 1.920, o Papa Bento XV a consagrou como Santa Margarida.”
Eu sei que muitos amigos ririam de mim se me ouvissem a contar essa história.
Eu também estou rindo.
Mas, é um riso diferente.
8. MENINO PEREGRINO
Naquela sessão, entre tantas miragens ou mirações, eu me sentia o menino da pequena cidade onde nascí, no sul do estado de São Paulo.
Aos seis anos, já vadiava pelos campos próximos, quase sempre só.
O andar só de um menino numa cidade pequena é peregrinar pelo vazio e reinventar o mundo em cada passo.
Sem essa transcendência, o canto das cigarras seria apenas um ruído irritante e sem motivo.
Mas, um menino dos campos fica imaginando que a cigarra canta para o Sol e talvez morra no mesmo dia de tanto cantar.
As cigarras secas que se misturam às folhas do chão, um menino dos campos apanha com um olhar triste. Ele não entende ainda porque razão a vida é o canto da morte. Nem porque a morte é a solidão que Deus espera em cada um para lhe entregar o seu real destino, que é o de vir só, voltar só e caminhar só pela Eternidade.
Então, um gafanhoto salta de uma folha qualquer e leva embora a tristeza por todos os corpos mortos que um dia o menino viu amontoados em ossos numa vala do cemitério.
O coveiro bate o pó.
O menino também.
E sai atrás de um canto distante de pintassilgo, mas pára no meio do caminho para molhar os pés e brincar com as águas de um riacho.
Uma vaca muge além do Muro das Lamentações dos homens e o seu lamento é inútil e se perde entre cantos de bem-te-vis.
A flor que pende do barranco sobre o riacho vai cair um dia, amarela e murcha, e seguir pelas águas até bater numa pedra e se desfazer em pétalas que um redemoinho levará ao fundo.
Louva a Deus.
Com as patas dianteiras erguidas, O Louva a Deus lembra na margem do riacho uma pessoa ajoelhada em oração.
Ele voa. Mas, o destino das pessoas é pisar o chão, carregar nas costas um balaio feito de taquara e colher milho verde e desacertos.
E se no morro tem um pé de manacá, só o vento vai pra lá. As folhas mortas esperam ser carregadas por ele. E as pequeninas e rasteiras flores silvestre esperam que o vento desça das alturas e passe rente ao chão para que elas também brinquem de dançar.
As joaninhas, redondinhas, escondem a cabeça para que reparem nos desenhos coloridos de seu corpo. Mas, não existem olhos para tão pouco e ela bate as asas e vai embora no próprio vento de seu minúsculo mundo.
Grande é a casa do João de Barro no galho da paineira. É preciso ser muito menino para perguntar com quem ele aprendeu o ofício de pedreiro. Mas, quando se pergunta, ele dá uma gargalhada de passarinho.
Um menino dos campos colhe gabirobas e pitangas e sonha ver um anjo a passar no alto, feito de nuvens brancas, em meio ao céu azul das manhãs.
Só vi nuvens brancas e disformes em minhas andanças.
Os Anjos, eu e meu tio apenas três anos mais velho, fomos procurar na Igreja, como coroinhas e ajudantes da Casa Paroquial.
Meu tio estava mais interessado nos pastéis que sobravam da marmita do padre. Ele divia comigo. Era o meu bom pastor.
Dele aprendi que não tinha vindo do céu no bico de uma cegonha. E tive meu primeiro desencanto.
Ele me mostrou pela primeira vez as partes intimas de uma mulher, ao provocar uma jovem mendiga que erguia as saias desafiadoramente para quem a encarasse, fosse quem fosse. Fiquei chocado. Senti naquele instante meu primeiro desajuste com o mundo. Ele não era feito apenas com a leveza das borboletas, o encanto dos passarinhos ou a graça das joaninhas.
Se não fosse meu tio, talvez nunca corresse da Igreja.
--- Corre, corre, gritou certa tarde.
Vinha, em disparada e assustado, dos fundos da Casa Paroquial.
--- O padre está de batina erguida e quer fazer mal pra gente.
O mal.
O mal fica apenas a um passo de nossos guardiões. E os nossos guardiões não podem ser distraídos nem ingênuos.
Na corrida --- cinco quarteirões em fuga até a casa de meus avós --- comecei a deixar cair pela vida a minha inocência.
Corre. Corre.
Esse alerta sempre surgiu em meus pensamentos quando estava com a ponta de um pé no Inferno. Nem sempre recuei. Não tinha mais um guardião.
No zumbido da cigarra, em plena Amazônia, ele reapareceu. O tio menino da minha infância entrava em minhas visões.
Eu via meu tio menino.
Eu me via menino.
Como um homem feito pode se ver menino?
Homem e menino ao mesmo tempo?
Tenho a plena lembrança de que me transformara em dois pela luz que chegava e me tocava no meio da testa. O homem via o menino. E o menino via o homem.
O tempo me dava um nó. Toda a retrospecção acontecia com rapidez extraordinária, através de uma força despertada que me permitia estar num lugar ou outro num piscar de olhos. Aquela luz eliminava tempos e espaços.
A presença de meu tio menino era apenas um dos muitos fatos revistos e recordados naquela sessão. Mas, a cena era desagradável.
Em volta de meu tio, figuras da mais repulsiva escrotidão faziam caretas, umas assustadoras, outras debochadas.
Uma delas se aproximou tanto que sua língua, agitada freneticamente fora da boca, num vai-e-vem lascivo, quase me tocou.
Em caras vermelhas, largas e achatadas, os olhos e os chifres eram de touro. Os olhos imensos pareciam boiar numa poça de sangue.
Às vezes, aquelas figuras dançavam impudicamente.
Outras vezes, gargalhavam.
Mais uma vez, uma daquelas figuras avançou na minha direção e passou a cochichar em meus ouvidos. A sua voz, igual ao guizo de uma cascavel, me arrepiava.
O jeito grosseiro de dizer as coisas lembrava a parte mais sombria das almas perdidas.
O mal brincava nos meus pensamentos e nas minhas visões.
Eu me questionava:
--- Qual o sentido do mal?
Uma gargalhada sacudiu minha cabeça e a resposta explodiu em meus ouvidos:
--- Domingo, manhã de sol, e os meninos com sapatos novos e bem cuidados seguem alegres para a igreja. Mas, no meio do caminho, um deles, distraído, pisa em alguma coisa mole e pegajosa. Escorrega, quase cai, reapruma-se, e percebe que um dos pés está irremediavelmente maculado e impregnado por um dos fedores eternos do Inferno. Coisa de cachorro. E seu belo domingo acaba em deboches e maldições. Eu só quero dizer que o mal é igual a coisa de cachorro no meio do caminho. Enfeia tudo o que antes parecia tão bonito.
Então, aquela boca medonha cantou uma modinha:
--- Na terra, uma roseira num canto do jardim. No céu, uma rosa, linda rosa, toda airosa. Mas, chega um cachorro: au, au. E na terra, embaixo da roseira, num canto do jardim: au, au. Deixa quase um quilo daquilo que enfeia a rosa lá no céu: au, au.
--- Mas, por que?
--- Porque para o mal a beleza é insuportável. Por falar nisso, temos uma novidade, uma grande novidade.
Meu tio menino não disfarçou sua curiosidade:
--- Conta, conta.
--- Estamos desenvolvendo o novo molde do corpo humano. Uma mudança simples e, no entanto, jamais imaginada. O corpo é formado por cabeça, tronco e membros, não é? Pois bem: a mudança acontecerá no tronco, entre as pernas e a cabeça, a parte central da estrutura anatômica do corpo. E será assim: a região traseira do tronco passa para a região dianteira. Isso significa que as nádegas assumem a frente do corpo humano.
--- Não vai caber.
--- Vai sim, porque a região dianteira passa para a traseira.
Meu tio brincava com o mal e eu me arrepiava.
Nunca me senti à vontade com palavras e imagens indecentes ou grotescas. Mas, não conseguia trancar meus pensamentos nem minhas visões.
--- Nenhum homem ou mulher vai querer uma transformação dessas --- pensei, envolvido por tantas bobagens.
Logo tive a resposta:
--- E a propaganda para que serve? Os jornais, as revistas, o rádio, agora a televisão, todos dançam conforme o dinheiro que circula nas Trevas. E assim propagam uma mentira. E tantas vezes a propagam que vira verdade. Assim, temos lidado com as almas, embora homens e mulheres raramente percebam que foram apanhados por uma teia de aranha diabólica, onde o fio guia é a ambição e é o mais forte de todos. Outro fio é o do medo. Ambição e medo formam a base da grande aspiral onde as almas se debatem e se tornam nossas presas.
Nosso objetivo agora é o corpo, o maior estandarte da vaidade humana. Nós comprovamos isso todas as manhãs e todas as noites, quando nos transformamos em espelhos. Até hoje, nenhum homem e nenhuma mulher percebeu que o espelho é um demônio transfigurado. E assim exploramos a vaidade humana há milênios. Há séculos e séculos são feitas mudanças no nariz e nas orelhas. Orelhas de abano, que complexo antigo. Nariz fora de prumo, também. Com a evolução da cirurgia, vai ser possível a execução do projeto que arrasa a beleza humana.
--- Ninguém quer ser feio!
--- Mas, quem disse que alguém sabe o que quer? Todos são e fazem o que pregam os meios de comunicação. E os meios de comunicação estão a serviço daqueles a quem entregamos os poderes do mal sobre a Terra. Eles criam legiões de irresponsáveis, já que raros têm a coragem de ser sós e pensar por si mesmos. Há muito tempo, nossos meios de comunicação exploram essa fraqueza humana. E enaltecem o feio e o feio bonito parece. Vamos anunciar a mudança com uma grande campanha de propaganda.
--- Campanha de propaganda?
--- Claro que vocês pouco compreendem o que estou falando, mas não faz mal, nem é preciso. O sexo é o maior apelo numa campanha para qualquer coisa e não importa a faixa de idade, a classe social, se homem ou mulher. Nosso slogan vai ser este: O que era bom de frente, de costas ficou muito melhor.
Meu tio se divertia muito e procurava me colocar, entre gargalhadas, no seu jogo reticente:
--- Imagine na hora de...
Eu não preenchia as reticências. Não agüentava mais participar daquela conversa chula que ocupava toda minha mente, onde não sobrava um espaço sequer para a leveza que já havia sentido. Apavorado, realmente apavorado, pensei em pedir ajuda ao Mestre. Sentia-me enjoado e com medo de não escapar daquele momento. Mas, outra boca vermelha e escancarada surgiu quase a tocar o meu nariz:
--- A mudança vale também para todas as criaturas humanas que têm a mania de andar para trás. Enquanto o mundo segue em frente, elas regridem e os macacos as esperam de volta. Andar para frente, de costas, vai ser uma medida mais de acordo para quem vê o mundo pelos fundos.
Meu tio ria muito. Eu temia as blasfêmias. Já tinha passado dolorosamente por elas quando coroinha. Durante as missas, assim de repente, enquanto balançava o turíbulo de incenso, os mais estapafúrdios pensamentos me atormentavam. No meio de um verso de oração, surgia um palavrão. Olhava desesperado para o altar em busca de ajuda e todas as imagens, que tanto venerava, apareciam escandalosamente nuas. Eu me benzia nervosamente e então as palavras chulas com que meu tio definia as partes íntimas de homens e mulheres chegavam uma atrás da outra. Temia como nunca estar a caminho do Inferno.
Esse meu suplício nunca levei ao confessionário nem contei a ninguém. Mas, ele tirava a paz de meus domingos e dias santos de guarda.
Ah, meu tio. Com seu riso escancarado, estava agora à minha frente sem jamais imaginar que viajava no meu tempo de Ayahuasca e que eu estava no limite máximo de minha tolerância. O peso no meu estômago era de todos os meus pecados.
Com força, ele me abraçou e depois me puxou pelas mãos.
--- Corre, corre. Vem ver onde o padre está.
Senti-me um pouco mais aliviado. Escapava daquelas figuras assustadoras. Na minha visão, eu e meu tio corremos pela floresta, entre as sombras de uma manhã de sol, e chegamos até a velha palhoça de um velho seringueiro.
Ele sorriu para o meu tio menino. Meu tio menino era muito simpático.
--- Bom dia, seo Ponciano. Esse é o meu sobrinho. Tem hora que ele vira gente grande, tem hora que vira criança, mas eu garanto que é meu sobrinho com qualquer tamanho.
--- Não preciso explicação. Vocês estão num tempo fora do tempo.
--- Ele não conhece a casa do Caipora, seo Ponciano.
--- Inferno numa hora dessas?
--- O senhor leva a gente pra ver?
O velho seringueiro se levantou, passou carinhosamente as mãos na cabeça de meu tio e sorriu novamente:
--- Esse menino não tem jeito. Conta pro moço que não sou seringueiro sem força pra pegar a machadinha. Só estou de mão vazia porque espero a floração.
Aquele seringueiro, nas minhas visões, se parecia com todos os outros que, sozinhos nos seringais, sem família, extraiam a borracha de abril a novembro, na floração. Saiam às três horas da madrugada e corriam com seus lampiões os caminhos escuros da floresta, para fazer o corte nas árvores e pendurar as pequenas tijelas que aparavam o látex. No fogão improvisado da palhoça ficava a panela de feijão. Eles só voltavam seis horas depois, com todo o látex recolhido em grandes baldes. O látex iria virar uma bola de borracha de uns 50 quilos sob a fumaça de coco de babaçu. Ela ardia nos olhos e atacava os pulmões.
Seo Ponciano era homem de passo bom. Saiu na frente. Com a mão esquerda, desocupada, fez um gesto para ser seguido. Na mão direita, carregava um pedaço de fumo de corda.
Ele percebeu nossa curiosidade:
--- É pro Caipora. Se não deixar o fumo no tronco de uma árvore, ninguém passa. O Caipora é o melhor ajudante do Reino do Diabo. Só tem um olho no meio da testa e é manco de uma perna. Anda pela floresta montado num porco do mato. Fuma cachimbo e bebe cachaça. Caboclinho danado de esperto. É o caçador de caçadores que matam mais do que precisam. Não dá sossego. Espanta as caças, bate na cachorrada, faz o caçador se perder ou deixa o coitado num azar sem fim. Caçador com caiporismo nunca mais se ajeita. Mas, com o Caipora ainda dá pra brincar. Com o Diabo, não.
Já enveredados na floresta, ele começou a cantar:

De manhã saí na estrada
Sem nela saber andar
Com a machadinha na mão
Corta aqui Corta acolá
Colocando as tigelinhas
Cada qual no seu lugar

À tarde volto à barraca
Sem descanso ao coração
Num braço conduzo um rifle
No outro levo o bulhão

A vida não é tão boa
Quem quiser vá experimentar
Se colher é muito ruim
Mas pior é defumar
Ainda cortar cavaco
E depois ir mariscar

Quando ele alcança saúde
Vê a sorte em quanto dá
Colhe todos os seus trabalhos
Sai sua conta legal

Mas quando dá o caiporismo
Em tudo bate a sezão
O beribéri aparece
Incha perna e incha mão

Nossa caminhada terminou à beira de uma imensa cratera aberta na floresta.
Seo Ponciano se benzeu antes de se estender de bruços no chão e olhar pra baixo, com o corpo quase inteiro em terra plana e firme e só a cabeça avançada um pouco sobre o grande abismo.
Eu e meu tio nos estendemos a seu lado.
Seo Ponciano cochichou:
--- O Inferno estava pequeno para tantos pecadores. Deus mandou três bolas de fogo para aumentar o tamanho. As bolas caíram do céu, muita gente viu. O céu mudou de cor, a floresta tremeu num estrondo danado e depois caiu uma chuva sem água. Só poeira e vento poeirando.
Na imensa cratera, eu e meu tio só vimos escuridão. Trevas insondáveis. Como se a gente olhasse pelo buraco da fechadura a batina do padre.
--- Não demora e o Sol passa por aqui e vai clarear.
A fala de seu Ponciano coincidia com a primeira réstia da luz do Sol a descer sobre o abismo.
Então, meu tio se agarrou em mim. E eu nele. Vermes imensos, do tamanho de homens, de uma cor branca repugnante, enrolavam-se uns nos outros, numa disputa medonha para ficar sob aquele feixe de luz que chegava.
--- Eles estão com sede, comentou seu Ponciano.
--- Mas, não vejo água, estranhou meu tio.
--- A sede é de luz. Essa gente foi muito ruim na Terra.
Mais um pouco e o Sol iluminou toda a cratera e milhares de mãos se ergueram em corpos sem cabeça. Corpos desvairados que corriam como os frangos decepados com um corte de faca no pescoço e que só param de correr quando o coração pára.
--- No Inferno, o coração deles não pára.
Aqueles milhares de corpos sem cabeça continuavam a correr e a suplicar ajuda com as mãos erguidas para o céu. Seo Ponciano acompanhava tudo:
--- Lá embaixo tem gente que cobiçou demais. Tem gente debochada. Os que rangeram de ódio. Os suicidas, os avarentos, os traidores, os esbanjadores, os que desperdiçaram os bens de Deus, todos despencaram lá pelo desamor. O Inferno é o lugar do desamor. Desamor é o querer pra si. Amor é o dar de si. Eles esperam a salvação, esperam o amor.
--- Sem cabeça, como é que eles vêem que estão no Inferno?
--- É o espírito que vê, respondeu seo Ponciano para o meu tio.
--- E a cabeça deles?
--- O Diabo comeu. O Diabo aqui na Amazônia é o Mapinguari. Quando o cheiro dele chegar aqui no alto, vocês vão ver que Diabo feio está lá embaixo.
Não demorou e um cheiro repugnante invadiu o ar
O Mapinguari aparecia sob a luz do Sol.
--- Ele gosta de Sol, falou seu Ponciano.
Medonho, imenso, o corpo inteiro coberto de pelos, com uma boca monstruosa que descia verticalmente até o meio da barriga, ele mascava uma cabeça humana. Tinha outras em suas garras afiadas, maiores que as do bicho-preguiça.
Quando soltou um grito terrível e ameçador em nossa direção e sacudiu as duas cabeças, seo Ponciano se ergueu depressa do chão.
--- É hora de ir embora. Quando a gente olha demais pro Inferno, o Inferno começa a olhar pra gente.
Meu tio não se lembrou mais do padre.
Nem eu.
Nesse momento, meu tio começou a se afastar de mim. Meu tio menino. Sorrindo, com um último aceno, desapareceu no ar. Ele e seo Ponciano.


9. AFINAL, QUAL É O DESTINO DO HOMEM?
Eu tinha nova e extraordinária percepção de tantas coisas que li, vi, ouvi, vivi ou imaginei.
Comecei a refletir sobre minhas experiências com a Ayahuasca, quando ouvi a meu lado uma voz masculina, grave e seca, que me repreendia:
--- Fique quieto!
Virei-me um pouco irritado com aquela implicância. E ali estava um homem, em absoluto silêncio, com os olhos fechados, sem ter falado coisa alguma. Apenas sorria, embalado, talvez, por visões felizes.
Voltei às minhas reflexões e um toque de campainha, igual ao que anunciava o inicio das aulas, nos velhos tempos de escola, soou nos meus ouvidos.
Era um inseto da noite com seu canto estridente.
--- Atenção, irmãos!
A voz do mestre era inconfundível.
--- O pensamento é mais rápido que Deus!
A sua voz vinha em ondas coloridas que vibravam na sala e criavam belas e inusitadas figuras geométricas. Para cada sílaba, uma figura diferente. Elas se encaixavam na frase e se transformavam numa peça final de rara beleza: a oração completa.
Acompanhei em profundo silêncio interior aquelas figuras que se formavam, dançavam no ar e desapareciam no eco das palavras.
--- Deus sempre chega depois do nosso pensamento. Nosso pensamento é mais rápido. Deus quis assim.
Num doce encantamento, ouvia sua explanação.
--- Ser dono do próprio pensamento, antes de Deus, é a grande dádiva divina.
Pausadamente, as palavras chegavam e continuavam a desenhar figuras no ar:
--- O pensamento é o bem que o homem recebeu para ser senhor de si. Deus não quer no seu reino nenhum escravo. A maior prova do amor de Deus pelo homem é esse direito de ser livre e criar seu destino com o próprio pensamento.
Não consegui segurar um pequeno acesso de tosse.
Achei que interrompera as visões.
Lamentei muito naquele instante andar pela vida com fumaça de cigarro atravessada na garganta.
Fiquei aliviado e feliz quando voltei a ver e ouvir de novo.
--- O destino do homem é seguir desamarrado por mundos e mundos, por céus afora. Deus não quer ninguém atado nem chega à frente de qualquer pensamento. Nem mesmo por todo amor que oferece, Deus quer em troca um homem vergado pelo medo de pensar desse ou daquele jeito. No Reino de Deus não existem cabrestos. Ele só espera que, pela liberdade, todos os seus filhos alcancem a glória da existência. Sem que Deus mexa uma palha do caminho, com direito a seu próprio pensamento, os homens seguem seu destino. Os que abençoam ou amaldiçoam. Os que dão a vida ou tiram. Os que amam ou odeiam. Os que cantam ou desencantam. Os que entregam ou tomam. Os que aliviam o peso das almas ou amontoam mais. Os que criam ou destroem. Em todos os tempos que vão e que vêm o pensamento do homem sai na frente de Deus.
Em meio a um grande silêncio, alguém na sala fez a pergunta que eu segurava comigo:
--- Se nossso pensamento vem na frente de Deus, quando é que Deus alcança a gente?
--- Quando a gente cai de tanto pensar. De tombo em tombo, de tropeço em tropeço, a gente vai aprendendo que o pensamento é só um instrumento para se entender o mundo e cuidar dele. O erro é usar o pensamento para ficar cheio de si e querer ser dono do mundo. Quem não ouviu falar daquele povo cheio de querer que, tijolo por tijolo, começou a construir uma torre que alcançasse o céu? O Senhor, lá no alto, ficou preocupado. Se aquele povo, que fala uma só língua, já tem tanta ambição em seus pensamentos, o que será do mundo? E o Senhor desceu à Terra, embaralhou as palavras, ninguém mais se entendeu, um grande vento destruiu a torre e todos se dispersaram pelo mundo. O pensamento quando desembesta a querer tudo, não há quem segure. O que é um bem do saber passa a ser uma coisinha esperta do querer, da conveniência própria. O pensamento existe para apanhar versos que descem do céu, mas ele mesmo se inventa como o criador dos versos e vai ao mercado vender. O que é novo vem para o pensamento, não vem do pensamento. O que é de Deus chega aos homens quando os pensamentos se aquietam em seus cantos, sem uma palavra. Nesse silêncio Deus fala.
--- Quando é que a gente chega lá?
--- Pelejando na vida. Pelejando, pelejando até descobrir que é melhor esperar Deus chegar do que seguir o pensamento que veio na frente. A peia dos homens é o caminho da luz.
No final da seção, ficaria sabendo que peia é uma corda que prende o pé dos animais e que significava castigo.
--- Será sempre assim?
Para a pergunta vinda de outro canto da sala, a resposta:
--- Assim será até o dia em que uma galinha ciscar as costas de um jacaré.
Todos riram com a graça da metáfora.
De forma simples era passado o fatalismo da tragédia grega. No destino dos heróis que buscam a superação humana não existe final feliz aqui na Terra.
Mas, é preciso ser herói sempre, mesmo que se perca o Reino de Tebas como um Édipo. Mesmo que o fim seja igual ao de Agamenon, o rei de Micenas, assassinado pela mulher Cliptmnestra e seu amante, quando voltava de Tróia em plena de glória.
É preciso buscar o fogo dos céus como Prometeu, mesmo que se termine preso e acorrentado no alto das montanhas do Cáucaso.
O desespero também passa entre os heróis. Aquiles, enlouquecido pela perda de seu amigo Pátrocolo na Guerra de Troia, saltou sem armas para o campo de batalha. Seu grito foi tão forte e pungente que o exército troiano o imaginou louco.
A bravura, mesmo quando tudo desanda em volta, é que define o herói.
A aceitação da queda, mesmo que seja para a mais sombria das misérias, define a santidade.
Deus espera que alcancemos a consciência de nossa divindade quando deixarmos no campo de batalha todas as nossas paixões.
Na sala, a explanação continuava serena:
--- Nosso destino é seguir com os pensamentos até um pontinho na Eternidade onde a gente vai descobrir que Deus é a nossa melhor intuição. Os homens só se encontram com Ele num vãozinho silencioso entre os pensamentos. Quando o silêncio dos homens encontra o silêncio de Deus, então Ele semeia. Pegamos as sombras do caminho e o coração celeste age por nós. É nessa hora que o homem deixa de ser cheio de caprichos para ser amoroso. Sereno, serenando, ele conduz a vida no meio da claridade e se desvia da escuridão dos pensamentos mais rápidos que Deus. O pensamento é um fio de cabelo que une o Homem a Deus, mas também pode separar. O Homem que se agarra a um fio de cabelo com muita força despenca das alturas. Deus é serenidade e não cabe em nenhum desassossego que os pensamentos trazem ao coração. Quem não é prisioneiro dos pensamentos ganha a liberdade de Deus, que é a liberdade de ser, nada sendo, em caminhos que se alargam e onde o mal não encontra ninguém para atacar, porque não existe ninguém a passar. Naturalmente, o Homem segue seu destino, sem nenhum plano de chegar, porque ele sente que está no Infinito. A riqueza e a pobreza, o amor e os enganos, a alegria e a dor, nada mais há que incomode. Cada um de seus atos será guiado por Deus, sem necessidade de nenhuma esperteza dos pensamentos. O que for feito, terá a força do raio e o eco do trovão. No meio dessa claridade, o medo vai embora, pois o medo é só um pensamento desajeitado. A alma errante, fora do caminho, precisa seguir a maior das leis que vem do alto: é o nada querer, para não atormentar o espírito. Nesse nada querer, a sinceridade não se esconde diante do que é certo ou errado e a vontade é firme, sem bambear as pernas na má sorte nem temer o que há de vir. E o Homem aprende a não cobrar do Céu o que é de seu próprio dever fazer na Terra.
Tudo se aquietou de repente.
Os bichos da noite, o vento, as águas, a Terra inteira, num assustador silêncio, pesavam sobre o grande medo que eu sentia por ser uma frágil criatura que só ouvia a própria respiração, sem nenhuma certeza de que ela continuasse.
Comecei a chorar.
Aquele silêncio me ligava a uma sensação de amor jamais sentida, o amor sem fim, que resiste a todas as máscaras que os homens usam para se distanciarem da Eternidade e esquecerem a razão de sua existência.
Eu pegava um pouco de luz.

10. NOSSO DEUS SOL
O som cortante de uma flauta varria como vento seco as notas de uma música árabe.
Raramente, a flauta se estendia numa nota só, prolongada.
Instrumentos de corda, no acompanhamento, chicoteavam a melodia.
Aquela música vinha envelhecida pelo pó do deserto. Estava no ar, mas eu não sabia de onde chegava.
Os tambores, ligeiros, davam vontade de girar com os braços abertos em todas as direções e todos os tempos, em plena rendição ao desconhecido.
Eu me via entre milhares de pessoas, em profunda adoração.
Baal, Deus Sol.
Baalbeck, o centro mais antigo de adoração.
Monolitos monumentais erguiam-se perfeitamente talhados diante de um templo magnífico.
A imagem do Deus Sol engrandecia a entrada.
Sentí no estomago que não estava preparado para essa miragem.
A voz do dirigente da sessão ecoou na sala e embora parecesse tão distante me reconfortou um pouco:
--- Recordar é viver.
A frase me lembrava o verso e o título de um samba de Carnaval e sorri.
Fiquei mais à vontade com meu estômago.
Aceitei a condição de ser um velho viajante da Terra, que adorou em tempos remotos o Sol como o seu Deus.
Eu me via a passar diante de mim como um antigo navegante fenício. E assim como a gente se vê no espelho, a imagem observada tinha mais vida que o observador.
Estava entre aqueles intrépidos viajantes da antiguidade que buscavam saber e poder.
Os fenícios criaram o alfabeto. E os pergaminhos da Bíbilia vieram de Biblos. Eles descobriram a Estrela Polar e desenvolveram os primeiros fundamentos do comércio exterior. A globalização começou por lá. Antes dos navegantes portugueses, eles já circunavegavam a África, como relata o historiador grego Heródoto.
Meu espírito estava entre todos aqueles que imploravam ao Deus Sol, diante de sua portentosa imagem, que amansasse os mares pela frente.
Mas, sentia dolorosamente que no meu espírito não havia mansidão.
Na minha recordação, estava ali no templo como um homem impiedoso, que já havia deixado rastros de sangue de mulheres e crianças inocentes à beira de muitos mares.
No meu rosto estranhamente refletido entre sombras vi os contornos de um assassino, vincos desenhados da crueldade.
Uma tormenta sacudia meu estômago. Temia rever aquela face medonha de meu espírito.
Abri os olhos quase em desespero.
Procurava Nunuí.
Com gestos meigos, ela me convidava a me aproximar.
Mas, assim que me ergui em sua direção, percebi que não estava na sala, mas percorria com ela caminhos suaves sob o Sol, igual ao tempo em que vadeava, com a alma leve das manhãs, pelos campos nos arredores de minha cidade.
Depois das tempestades das noites de Verão, gostava de buscar a luz do Sol nas gotas de chuva que se equilibravam redondas sobre folhas de samambaias, até que caíssem pelo balanço do vento ou pelo próprio peso.
Aquele pingo de Sol numa gota de chuva me fazia maior e me acolhia num mundo onde não sentia mais o medo de ser um andarilho solitário, igual aos que via a atravessar minha cidade e seguir pela estrada.
Sem nenhum medo, esquecia pelo caminho o Deus das orações de minha mãe.
Tinha certeza de minha proteção naqueles pontinhos de luz nas gotas de chuva. A plena proteção que a inocência recebe todas as manhãs da maior representação visível de Deus.
O Sol.
Na minha pequena cidade aprendi divagando, devagar, um pé sem apressar o outro, no caminho contrário de outras crianças, que o Sol refletido nas gotas de chuva é o mesmo Sol acima de todas as coisas e seus mensageiros cantam em todos os quintais.
O canto do galo.
O mais terno testemunho da vida.
Suavemente, o Sol se levanta com o canto do galo.
Se nas batalhas de todos os tempos o canto do galo ecoasse nos campos, em lugar dos clarins ou das trombetas, os guerreiros, com os espíritos desarmados, estenderiam seus olhares até o horizonte com ternura e poupariam seus irmãos desconhecidos.
O canto do galo lembra a paz de Deus do amanhecer.
Lembra o pão da manhã.
Lembra banana maçã.
Laranja madura, com orvalho no pé.
Lembra cheiro de café.
É um acorde de mãe no despertar.
É pitanga madura.
É o homem a caminhar.
É o brilho dos rios e dos regatos.
O galo mensageiro canta para que as sombras se estendam e acolham os homens cansados de todos os campos.
O Sol que o galo canta é flor. É mel. É chuva. É sabiá. É bem-te-vi. É o verdureiro a bater palmas no portão. É o cachorro e o vôo da perdiz. É a gema do ovo.
O Sol de todas as manhãs.
Mas, a gente se esquece de olhar e agradecer, mesmo que o galo cante três vezes.
--- Esse é o Sol que nós devemos adorar, falou Nunui com um sorriso amoroso. Em seguida, ela começou a cantar:

O Sol, o Sol
Ilumina e aquece
Num céu sem Sol
A Natureza emudece

O poder de Deus
Tem no Sol sua morada
Do Sol vem o calor
Vem a vida, vem amor

Cada menino e menina
Que chega neste mundo
Traz no olhar a Luz
De um Sol no coração

O nome Jesus
Quer dizer Sol no Céu
Depois de Deus Pai
É Jesus quem vem primeiro

O Sol nasce pra criar
O lugar de cada coisa
O Sol nasce pra cuidar
De cada coisa em seu lugar

O Bem é o Sol
Bem-te- vi é a gratidão
Cante para o Sol
Com amor e devoção

Todos os mistérios
Todos os tempos
Todos os Templos
Revelam o Sol


Domingo é o Dia do Sol
Domingo é o Dia do Sol
Vou adorar, vou adorar
O Sol, meu criador

Domingo é o Dia do Sol
Eu vou sair, eu vou sair
Pro Sol me ver
Com o olhar de Deus

Que bom na velhice ser piegas o quanto quiser.
Que bom saber que a gente acaba ficando só como o Sol. Falta apenas ser altíssimo. Mas, quem sabe a gente fica um dia.
Nas minhas visões, o Sol ocupava a abóbada do Templo de Salomão. Exuberante. Eram reproduções de algumas ilustrações que já havia visto. E Nunuí me falava:
--- O Sol é o olho mágico com que Deus nos vê. O olho de Deus irradia força e luz. O Selo de Salomão consagra os mistérios da criação e esse olhar de Deus em nós. Ciência é o conhecimento. Consciência é o uso do conhecimento dentro do bem. Paciência é saber lidar com a eternidade.
Com o Sol dentro de mim, virei menino e Nunuí uma mulher de beleza fascinante.
Ela me apanhou ternamente com mãos de irmã mais velha que não tive.
Seu corpo queimado de Sol era um verso moreno que rimava com o verde à nossa frente. O moreno e o verde na Amazônia se combinam.
Naquela imensidão, em que penetrava em minhas miragens levado pelas mãos de Nunuí, perdi as referências do meu tamanho e não me importaria se por acaso fosse menor que uma gota de néctar no bico de um beija-flor. Falo de néctar, porque naquele momento minha felicidade tinha gosto do Paraíso. Minha mãe dizia que o Paraiso era mais gostoso do que o papo de anjo que ela preparava com tantos ovos que eu ajudava a recolher do galinheiro e que ela batia com a paciência do bem, colocava em forminhas e levava ao forno, para depois cobrir com calda e baunilha. Para minha mãe, o inferno ardia mais quente que uma boca cheia de pimenta malagueta.
Nunuí acompanhava minha alegria com um sorriso que as mais belas mulheres mostram quando têm uma flor nos cabelos. A beleza incomparável da simplicidade.
Ela voltou a cantar. A melodia era da primeira canção que me lembro de ter ouvido em minha vida, numa dessas manhãs em que você contempla amorosamente uma mãe feliz a colher margaridas nos canteiros. Mas, os versos eram diferentes:

É um Rei, eu sei
Está na floresta
Entre tantos encantos
Encantado ficou

É um Rei, eu sei
Está na floresta
Melhor é o encanto
Que um real desencanto

É um Rei, eu sei
Vou falar com o Rei


Cantava com Nunuí e caminhava, caminhava.
Tinha a sensacão de uma estrela guia a pulsar no centro de minha testa. E a imagem da Princesa Sama reapareceu num breve instante. Ela me olhou nos olhos e me abraçou docemente.
Falei a Nunuí, sem saber por que:
--- O Deus que mora em mim saúda o Deus que mora em você.
Naquela caminhada eu reencontrava coisas que andavam perdidas em cantinhos da minha memória.
Nunuí retribuiu o cumprimento.
Meu estado de consciência era de união absoluta com Deus.
Sentia na floresta a recriação do Paraiso.
O verde, o ar, tudo me enfeitiçava e assombrava.
Brinquei com a Dormideira, uma planta de grande sensibilidade, e ela se encolheu tímida. Ví bugios cor de ouro, resplandescentes.
Serpentes encantadoras.
Uma bola de pedra vermelha, que estava sob a terra, se arrebentou com um estrondo e nela havia diamantes do tamanho de uvas.
Os papagaios reconheciam, em alvoroço, todo o esplendor da floresta. E Nunuí mudava a letra de sua canção:

É um Rei, eu sei
Está na floresta
Planta o saber
Colhe poder

É um cipó que leva ao céu
É um cipó que leva ao céu
Cuidado pra não cair
Cuidado com o degrau
O sagrado está no alto
Suba de grau em grau


Ouvia a canção de Nunuí e me sentia com pleno direito àquele Paraiso. Aprendia, também, que a Natureza perdoa os pecados do mundo e sombreia com a luz das divindades os nossos caminhos.
Sentia a diferença entre visão e alucinação.
A gente vê pelos olhos de Deus.
E se alucina pelas mãos do demônio, em fuga da vida.
Assim eu refletia, enquanto me via a caminhar, menino, com o Sol dentro de mim.
Então a floresta se abriu como a página que se vira de um livro de histórias ilustrado.

É um Rei, eu sei
Vou falar com o Rei

A voz de Nunui afagava meu olhar maravilhado. De todos os templos que vi em belas figuras de tantas histórias, nenhum se comparava com aquele à minha frente.
Arquitetos e milhares de pedreiros fenícios haviam erguido no meio da floresta uma réplica do Templo do Rei Salomão, com madeira, ouro e pedras preciosas que encontraram com fartura.
Aquela fantástica visão despertou minha memória para a ligação do rei iHiHiram, da Fenícia, com o Rei Salomão. Depois de enfrentarem os gregos e as tempestades em alto mar, vieram até a Terra de Ofir, o Brasil. Numa das viagens de volta, levaram, além de prata, madeira e bugios, quinze toneladas de ouro.
Embalado pela magia do momento, associava o nome do rio Solimões com Soleymon, que em hebraico significa Salomão. Vinha à memória minha professora de História, dona Mirthes, e seu jeito solene de contar as coisas:
“Eles chegaram e encontraram rios navegáveis e uma abundância de tudo. O Paraíso para o corpo e o espírito. O clima era tão benigno que produzia grande quantidade de frutos durante todo o ano. Um lugar para uma raça divina, não humana. Vieram em grandes navios, com setenta metros de comprimento, onde cabiam cento e oitenta remadores e trezentos soldados. O Rei Salomão e o Rei Hiram, da Fenícia, já sabiam das maravilhas deste Brasil muito antes dos portugueses.”
Entre candelabros, a mesa dos pães, o altar de ouro para os incensos, passava a luz mágica de uma música sagrada, que vinha da parte de trás do altar. Ela penetrava pela porta de entrada do templo e ondeava mansamente. A luz, com brilhos e sombras, e a música, com pontos e contrapontos, sugeriam a dualidade do Universo, onde uma coisa só existe em função da outra.
É um Rei, eu sei
Está na floresta
Planta o saber
Colhe poder


A voz de Nunui encobria a música do Templo. Então, revi uma velha figura:
Havia um sorriso meigo sob a grande barba e no olhar. Uma tiara de ouro e pedras preciosas prendia os longos cabelos. Sentado, com as costas e os braços encostados no espaldar do trono, suas mãos longas pendiam em paz, generosas. Sob o seu manto de velho e sábio Rei, ele parecia a mais graciosa das crianças.
Rei Salomão, o Rei dos Mistérios.
Nas minhas visões, passavam imagens nítidas de um filme colorido. E o Rei Salomão ajeitava seu anel e apontava para a raiz de uma planta nele incrustrada. Sobre seus ombros pousou um pássaro de uns trinta centímetros de comprimento. Era negro no topete, na garganta e no peito e todo branco nas partes de baixo. Mansamente, aquele pássaro se deixou apanhar e esperou sem se debater que o Rei Salomão prendesse alguma coisa em sua perna. Então, voou, como um pássaro mensageiro.
Um vento não imaginário bateu na sala.
E nas minhas visões, o Rei Salomão sorria e me deixava o pensamento de que ele foi o senhor de todos os ventos que sopraram sobre a Terra. Imediatamente, um tapete imenso flutuou no ar, feito de seda verde e entretecido de ouro. Sobre o tapete se acomodaram mais de cem pessoas. E ele se foi pelo espaço, acompanhado pelos pássaros. E eu tive vontade de beber mais uma porção de Ayahuasca e voar com eles.

11. ERA UMA VEZ
Senti uma saudade pungente de minha mãe.
Ela aquecia minha alma em seus braços quando meus medos de criança me davam frio.
Pouco a pouco, meus olhos se fechavam e cada barulho do mundo, um a um, descia serenamente sobre a Terra e pousava quieto.
Ficava apenas a voz de minha mãe a contar uma história. Mas, criança não ouve história de mãe. Criança vê. E continua a ver depois que já dormiu.
Assim me sentia na sala, enquanto a voz de minha mãe surgia em meio ao silêncio e entrava em antigas eras do era uma vez.
“Era uma vez, antes de Jesus Cristo vir ao mundo, um Rei.
Ele era adorado como o filho do Grande Sol.
Inca o seu nome.
O Deus na Terra para milhões de viventes.
O Grande Rei Inca nada decidia antes de consultar uma mulher que carregava em silêncio os mistérios do mundo e só a ele revelava.
Nem mesmo um Rei sabe os mistérios que guarda uma grande mulher.
Oasca era o seu nome. Conselheira do Rei.
Com Oasca, havia amor de mãe no Império, que é aquele amor que não deixa passar sede nem fome e não judia.
E o povo cantava feliz para o Sol.
Mas, um dia o espírito de Oasca se foi, mais uma estrela no Oriente.
Quem perde uma mãe, sabe a dor que fica.
Sepultaram seu corpo num grande túmulo.
O Rei Inca, quieto, triste, perambulou sem destino muito tempo, antes de decidir visitar o túmulo de Oasca. E ali havia nascido uma pequena planta. Que planta era aquela nunca vista no Império?
--- É Oasca!
Feliz, o Rei anunciava a presença do espírito de Oasca naquela planta. Não se sentiu mais só nem desamparado de idéias para governar seu povo. E parou feliz num pensamento: todos os mistérios e segredos de Oasca estavam agora na planta.
A Oasca ganhou mais vida em suas mãos, cresceu e floriu. Oasca na Terra.
Durante muito tempo, o Rei Inca esperou novas revelações de mistérios. Mas nada de novo aconteceu. Desconsolado, ele teve o pressentimento de que as mensagens estavam naquelas pequenas folhas, onde se penduravam florzinhas roxas. Não folhas para mascar. Mas, para um chá. Precisava de um homem de sua maior confiança para beber e revelar depois os mistérios. Havia Tiuaco, seu fiel marechal, que ele viu nascer e crescer. Era homem com merecimento para conhecer todos os segredos do Rei. O chá foi preparado e Tiuaco bebeu. Mas, a força do chá era tanta que seu espírito foi embora. Seu corpo ficou em outro tumulo erguido ao lado de Oasca.
O espírito do Rei também se foi alguns anos depois. E tudo foi varrido.
Só ficaram as marcas nas montanhas. Os caminhos, muitos caminhos, ainda estão lá. Os restos dos templos e palácios, também. E as lições de como lidar com a terra, com o tempo, com o ouro e a prata, o bronze e o cobre, ainda podem ser aprendidas.
Mais de mil anos em tempo contado se passaram antes que o Rei Salomão, o Rei da Ciência, ouvisse do outro lado do mar a história da Oasca, a mulher dos mistérios.
Ele decidiu navegar atrás do conhecimento, acompanhado de Caiano, aquele que ficava ao seu lado direito. Vieram pelo mar, subiram um grande rio e muito tempo depois, já em terra firme, chegaram ao túmulo de Oasca. O Rei Salomão deu o nome de Chacrona à planta que viu, depois de examinar folhas e frutos. Chacrona porque é chá com força temerosa.
Andaram depois até o tumulo de Tiuaco, o marechal de confiança do Rei Inca.
Ali, forte, bonito e florido como num dia de gala, estava o cipó Mariri. Para o povo da floresta, Mariri significa marechal.
Tiuaco é Mariri, falou o Rei Salomão para Caiano.
Então, ele consagrou a união do Mariri e da Chacrona no chá que preparou para Caiano beber. O primeiro chá para o primeiro oasqueiro. E Caiano conheceu os encantos da Natureza Divina.”
Eu entrava com a voz de minha mãe num universo singelo, onde era preciso ser criança para freqüentar Reinos Sagrados.
E minha memória deu passagem a Joaquim Maestro, regente da banda musical da cidade onde nascí, curandeiro e pensador no Largo da Matriz.
--- Quem contempla é contemplado, ele dizia a olhar para o céu. Antes de mexer nas coisas, é preciso contemplar.
Era uma manhã de domingo e, ao lado de meu pai, eu ouvia Joaquim Maestro, sentado num banco da praça, com uma porção de gente em volta.
Minha memória me surpreendia naquela sala, em plena selva amazônica, pela clareza das lembranças. Momentos vividos por uma criança de sete anos, normalmente esquecidos com o tempo, renasciam graças ao chá que bebera.
Tudo revivido e compreendido.
--- Eu defino a palavra contemplar como olhar o Templo. Olhar o lugar de Deus. Mas, qual é o nosso templo?
--- A Igreja Matriz, respondeu alguém.
Joaquim Maestro se irritou:
--- Mas que templo insignificante para se olhar. Nosso templo é nossa alma e nossa alma é o céu dentro da gente.
Sem muita paciência, Joaquim Maestro coçou a cabeça antes de continuar:
--- O mal do homem é fuçar as coisas. Se não fosse tão intrometido, ganhava tudo de mão beijada. Mas, em vez de contemplar serenamente as coisas de Deus, ele mexe. Não só mexe como estraga. Outro mal do homem é ficar entocado e entronado em sua alma. Não sai de lá de jeito nenhum. Mas, só quando ele sai é que Deus entra.
--- Ah, se o padre ouve uma conversa dessas, falou um homem magro e alto, que tocava clarineta na banda.
Em meio às batidas de sino do relógio da Igreja, Joaquim Maestro retrucou:
--- O padre não era nada antes de ser padre. E quando era nada, ele era igual a Deus.
--- Deus é nada? Deus é nada?
Riram debochados e protestaram.
--- Deus é Tudo. Mas o Tudo de Deus é o nada de nós. Entenderam?
--- Não.
Joaquim Maestro coçou outra vez a cabeça, desconsolado:
--- A gente só é quando não é. Entenderam?
--- Não.
--- Ah, meu Deus, me ajude a lidar com esse povo capenga de espírito. Eu vou explicar assim: façam de conta que a alma da gente é a nossa casa. Eu quero dizer que se a gente está em casa Deus não entra. Não cabem dois senhores na mesma casa. Deus quer a nossa alma vazia. É o Templo onde Ele quer ficar à vontade, só Ele, o próprio Tudo.
--- E a gente vira nada?
--- A gente vira Deus.
Todos ergueram suas vozes em desaprovação.
--- Ahhh, não!
--- Eu repito: sem nada querer a gente vira Deus e tem tudo. Digo mais: só tem liberdade quem é vazio de querer.
--- Não sei de ninguém assim, falou alguém de modo depreciativo.
--- Como é que não sabe se toda santa hora você chama o nome dele?
--- Quem?
--- Jesus. Ele tinha a alma vazia e livre e Deus estava nela. E se Deus está, quem é que vai temer a pobreza ou a morte? Se Deus está, quem é que vai querer louvores e honrarias ou se entregar às paixões? Vou repetir: a gente está no mundo para ser contemplado com a presença de Deus. E contemplar.
Os homens ajeitaram seus chapéus e, um a um, foram embora.
Joaquim Maestro coçou a cabeça pela última vez:
--- Eles não entenderam nada. De que me adianta ficar falando?
À noite ele regeu a banda no coreto. Eu estava perto com meus pais, ele me viu e apontou para o céu sorrindo. Havia uma Lua Cheia sobre a praça.
Na minha velhice, tenho a coragem de dizer que as almas chegam livres na Terra para um inocente ato de contemplação. Mas, todas acabam ficando cheias de si e Deus não cabe nelas.


12. ANTES QUE TUDO FOSSE CRIADO, ELE JÁ EXISTIA
A cidade onde nasci crescia em minhas visões. Primeiro, a torre da Igreja Matriz, que de longe eu vislumbrava da estrada, quando vinha em férias escolares. Pouco a pouco, a cidade ia ocupando seu espaço na paisagem e amansava a pressa de chegar.
Estava a brincar de saudade, graças ao chá das recordações.
Descobria que mesmo o momento mais recente da vida é um momento recordado. E o mais antigo é o momento presente.
Antes que tudo fosse criado, Ele já existia. Ele e as coisas do Céu e da Terra. Ele e tudo visível e invisível.
Antes que tudo fosse criado, eu também já existia com Ele. E Ele existia comigo na unidade de todas as coisas.
Na cidade onde nasci, peguei minha essência humana.
O chão dos primeiros passos, a paisagem do primeiro olhar, o sabor do primeiro bocado, o perfume da primeira flor, assim se forma a natureza original de um ser. Infelizmente, ela será destruída pouco a pouco. E não se perceberá mais outras estrelas, além daquelas cinco que classificam hotéis, restaurantes e generais.
Com o sufoco de minha essência humana, passei a ser o obsecado caçador de mim mesmo.
Não lavei mais a alma na chuva.
Todo o amor foi em vão.
E não andei mais de costas feito criança para compreender que na vida não se vê o que vem pela frente e o que se vê já ficou para trás.
Em meio a um momento de aconchegante silêncio durante a sessão, senti com alegria e perplexidade que minha essência e minha cidade se ligavam à Amazonia através de pequena história.
Fouad, um imigrante libanês, era quem a contava.
A sua casa, no Largo da Matriz, apresentava esboços da arquitetura árabe e acrescentava mais um pouco de orgulho a seu dono.
Quando as crianças que vinham do Grupo Escolar ficavam um tempo na frente da casa, em plena admiração, Fouad alisava sorrindo os bigodes.
Entre os imigrantes árabes de minha cidade, ele era o soberano graças a um pouco de poder, muita simpatia e alguns exageros.
Orgulhoso, dizia que seu irmão, que viera com ele do Líbano no mesmo navio, tornou-se cacique de uma tribo do Amazonas.
Ninguém se atrevia a rir, questionar a veracidade da história ou lembrar que não era mais novidade. Fouad se esquecia de quantas vezes contava a mesma história para as mesmas pessoas.
Sua voz troava igual trovão. E com um sotaque engraçado, sempre trocava o P pelo B: bamonha, bintassilgo, baróquia.
Pausadamente, dizia:
--- Meu irmão era mascate na Amazônia. Sair de barco com mercadorias. Vender para seringueiros. Faltava dinheiro pra pagar? Aceitava borracha. Meu irmão queria aventura. A gente veio pra cá, ele pra lá. Um dia barco de meu irmão afundou. Mercadorias boiaram. Indios pularam rio, pegaram meu irmão, pegaram mercadorias, trouxeram tudo para terra firme. Depois, dançaram pra meu irmão. Pensaram que era deus. Virou cacique. Ensinou jeito de fazer cintos e bolsas de couro, jeito de fazer comida árabe, jeito de assar carne no espeto. Mais de dez anos demorou pra patrício amigo achar meu irmão na selva. Graças a Deus.
Em sua casa, sempre aberta, Fouad recebia os que vieram com ele pelos mesmos caminhos e também aqueles que os receberam fraternalmente numa terra estranha.
Comemorava com grandes festas sua chegada ao Brasil. Uma delas, eu e meu tio menino vimos pela janela.
Inesquecivel aquela variedade de pratos muito bem arrumados sobre a toalha de linho bordada a ouro.
Em volta, homens, mulheres e crianças dançavam de mãos dadas. Giravam, giravam e num movimento único avançavam até a mesa e recuavam. Iam e vinham sem nada apanhar. Pareciam desafiar brincando o pecado da gula.
Sob os efeitos da Ayahuasca, eles chegavam a minha memória e se transformavam em imagens quase palpáveis: Hadad, Jamil, Jacó, Dib, Mateus, Salomão, Calixto, Souhel, Hakim, Nadine.
Todos eram alguns de meus pequenos grandes heróis. Instintivamente as crianças sentem em alguns momentos e em algumas pessoas centelhas da luz divina. E adoram as pessoas e esses momentos.
Salomão era center-alf do time de futebol, num tempo em que as pelejas entre as cidades criavam emoções de batalhas campais. O grande recurso de Salomão, quando os adversários ameaçavam perigosamente sua cidadela, era chutar a bola para alturas onde só os urubus alcançam. Tão alto subia a bola que havia tempo de reposicionar a defesa diante dos atacantes. Ou sentar em campo, descansar, beber água, conversar com os torcedores. Fouad, em seus exageros, falava de um jogo em que o adversário, que perdia por Um a Zero, procurava quase em desespero, a pouco tempo do final do jogo, desfazer a desvantagem com ataques seguidos, em massa, todo o esquadrão na linha de frente, com a única exceção do goleiro. Acuado diante de tamanha pressão, Salomão acertou o mais formidável de seus chutes. A bola subiu tanto que nunca mais se viu. E como era a única bola disponível, a peleja acabou e Salomão foi carregado em triunfo pelos companheiros de time e torcedores.
Dib, outro de meus heróis, eu nunca soube se era alto ou baixo, gordo ou magro, porque seu sorriso chegava à frente de qualquer outra apreciação. Dentes inabaláveis. Os únicos capazes de quebrar uma perna de cabrito, depois de dessossada a carne e servida. Era o que se dizia no Largo da Matriz e Dib sorria com aqueles dentes tão fortes, mas incapazes de morder o mundo.
O Suehl, de santíssima bondade, atrás do balcão de seu bar, numa das esquinas próximas da Igreja, acompanhava com olhar de muita mansidão o movimento dos domingos e feriados. Mais de um menino levou sem pagar picolé de groselha ou abacaxi que ele preparava numa máquina barulhenta. Suehl fingia nada ver porque eram meninos que viviam numa estufa abandonada com suas famílias indigentes. A bondade e humildade do Suehl diziam ter vindo de um acidente que sofreu quando menino de uns cinco anos. Ele caiu na privada, que era um pequeno compartimento que se erguia no fundo dos quintais das casas, com uma porta apenas. Dentro, tabuas estendidas, com um pequeno vão quadrado, cobriam um poço cavado no chão. De cócoras sobre aquele vão, homens, mulheres e crianças praticavam o único ato humano que só os muito loucos não se importam se for a céu aberto. Suehl, sem que ninguém visse, foi sozinho até a privada e, como havia uma tábua solta, caiu no buraco. Foi salvo pelo seu pequeno vira-latas, que de tanto latir atraiu todos para a casinha (assim se falava). Encontram o corpo leve de Suehl a flutuar na densidade da matéria em que caíra.
Mateus morava perto da casa de Suehl. Sabia lidar com cordas e laços. No dia do acidente, foi quem chamaram. Veio correndo e Suehl foi içado.
Hadad dividia com Joaquim Maestro, nas manhãs de domingo, a audiência no Largo da Matriz. Era o Aristófanes da cidade. Um grande e afiado satírico. Não poupava nada e ninguém.
--- Esta cidade precisa cortar o mal pela raiz.
Era uma referência ao Prefeito, um plantador de mandioca em suas terras.
Depois do acidente com o Suehl, Hadad passou a ridicularizar o cinismo e a pomposidade humana com muita graça.
Assim era um de seus discursos, numa linguagem seca e atravancada:
--- O homem sempre foi cínico e pomposo. Para não ser mais, precisa mudar costume. Grande sala não mais lugar de almoço e banquete. Novo costume é fazer na sala o que gente fazer na privada. Convida amigos. Enfeita sala. Grande festa. Pinicos de luxo, folheados a ouro. Um por um, convidados sentam no pinico. Então, dono da casa balança sininho, agradece presença e fala pra todo mundo se satisfazer à vontade. Garanto: mundo fica melhor com novo costume e sinceridade de conversa também.
Nadine.
A sua beleza adolescente, exuberante beleza, silenciava os homens quando ela atravessava a praça aos domingos para assistir a missa das dez horas.
A um palmo do meu rosto, do tamanho de um beija-flor, Nadine surgia à minha frente a dançar.
Impalpável como uma pequena fada, envolta em véus, ela acompanhava com grande graça o ritmo do derbakke e do pandeiro e a melodia de uma flauta dolente, que chegavam com a Ayahuasca aos meus ouvidos.
Procurei ficar absolutamente quieto e tranqüilo para que não se desfizesse a visão.
Nadine me revelava que dançando se agradece com o corpo as graças recebidas.
Os imigrantes libaneses deixavam na Amazônia a lembrança de que sob o Deus Sol uma alma feminina nos embala. A Terra.
Terra Mãe.
Ela dança num giro que tudo gera e a todos alimenta.
Terra mulher.
Seus véus, feitos da luz do dia ou do sereno da noite, cobrem seu ventre generoso.
A Terra espera há milênios que um peregrino passe no deserto e encontre o pé de tâmara que lhe reservou. Ou que um beija-flor venha molhar suas asas nas águas de um Oásis ainda desconhecido. Mesmo no deserto, a Terra oferece o alimento para quem está no caminho da eternidade.
Sete ventos nos empurram, além das sombras, para as sete cores do arco-iris.
A Terra Mãe nos embala nessa dança para que um dia o espírito se revele.
Eu sentia nas minhas miragens que dançar era o jeito sagrado de ultrapassar os limites da consciência ordinária. O corpo eu via como um instrumento das divindades.
Comecei a bater meus pés dentro dos sapatos, ritmadamente. Senti em meu rosto a formação de vincos que marcam os índios da floresta. Sentí a vontade de invocar a chegada do Sol para lhe render homenagem pelas quatro estações que davam à Terra a Primavera, Verão, Outono e Inverno.
Senti que a dança da Terra em torno do Sol e a dança dos homens em torno do nada é uma declaração de amor a Deus.
Em minha memória cresceu, então, uma valsa de Strauss, e meu pai e minha mãe saíram a dançar e se tornaram um e giraram com os mesmos sonhos e apertaram as mãos como dois irmãos de todos os tempos e se olharam em grande inocência e sorriram e Deus talvez estivesse a dançar com eles.
Quando eu já era homem feito e meus pais já um pouco frágeis --- minha mãe muito mais --- acompanhei os dois a dançarem um tango numa festa de aniversário. A leveza de suas almas dava ao corpo a graça de cada passo. Então, a fatalidade e a dor que o tango retrata tão profundamente transformaram-se num verso passageiro de todo o esplendor que a vida oferece.
Emocionado, a sentir na garganta aquele nó que o amor costuma dar, ouvi uma voz serena a descer no silêncio da sala. Virei meu rosto em busca daquela voz. Encontrei o mais humilde dos homens ali presentes.
Magro. Rosto fino e moreno. Cabelos negros e lisos. Olhos brilhantes mesmo sob a luz de lampiões. Não passava de um metro e setenta de altura. E se usasse trajes indianos seria tido como tal. Fiquei sabendo depois que ele deixara há pouco tempo os seringais.
--- O desamor de um filho pela mãe é o mais triste dos desamores.
A sua voz era ao mesmo tempo firme e suave.
--- A Terra é a mãe desamada. O muito querer de seus filhos sem juízo perfeito e o pouco me importa dos outros ferem seu corpo e seu espírito, trazem a dor. A Terra já está morrendo e mesmo na sua agonia nenhum de seus filhos mostra um arrependimento firme e sincero pelo mal feito. Falam seu nome em vão. Em todo canto, falam. E ela continua sendo envenenada pela ciência do mal, aquela que turva as águas e anuvia o céu. As mãos corajosas que se erguem pela sua salvação são cortadas por outras mãos. Mas, um dia, que não está longe, essas mãos que carregam a foice hão de tremer junto com a Terra. Pela última vez. Chegada essa hora, vão despencar da mesa as taças de cristal que os filhos sem juízo perfeito usam para comemorar mais um poder de cada querer. A Mãe Terra, desfeita em pó, sem nenhuma lágrima, não vai chorar com outras mães a morte pela sede na boca seca de seus filhos. E nenhuma sombra de nenhuma árvore vai cobrir os corpos estendidos no chão. Para os que chorarem de fome a Terra, sem nada mais para ofertar, estará coberta pelo lixo que antes era o luxo da insensatez humana. O luxo estará acabado. Mas, o lixo o tempo não destruirá. No desespero final, a Mãe Terra vai lamentar a sorte do irmão que mata irmão para não ser morto e que come o próprio irmão para não ser comido.
“Então, ouvi a terceira Criatura: Venha! E apareceu um cavalo baio, o nome do cavaleiro era Morte e o Inferno o seguia de perto.” (Apocalipse-6:7)

13. A DOCE LOUCURA DO SEM-FIM
É bom ser um velho sem mais compromissos e viver a doce loucura do Sem-Fim.
O Sem-Fim canta de manhã e à tarde para aqueles que acham que o mundo acabou.
A experiência que vivia em plena Amazônia, entre gente tão singela, clareava meu caminho de ida e alargava o caminho de volta.
Na travessia, um vai-e-vem eterno, os dois caminhos são um só e conduzem o homem à sua aventura divina. Então, sob todos os mistérios que sombreiam sua passagem, o homem assume o seu destino de ser herói de uma grande jornada.
Houve um momento em que sentí dentro de mim duas entidades. Uma que perguntava. Outra que respondia. Ambas numa convivência amistosa, sem conflitos.
Afinal, por que o homem precisa entrar nessa profunda aventura da transformação interior?
Para deixar de ser um João Ninguém.
Um João Ninguém só é senhor de sua própria escravidão. Ele despreza os outros porque despreza a si mesmo. E nesse desprezo é ingrato com Deus.
Por que é tão rara e difícil a transformação?
Ser responsável por seu destino é missão heróica que poucos assumem. Os demais se entregam a mãos estranhas, que os sufocarão um dia. Não haveria opressores se houvesse o sentimento de liberdade no coração dos homens, mesmo que ela signifique a cruz em que serão crucificados. É o homem bruto, ainda não transformado, que martiriza, crucifica e deixa morrer de fome e sede justamente aqueles que trazem a sua liberdade. É o homem bruto quem elege, aceita e se dobra diante dos mais cruéis ditadores. É aquele que tem alguns lampejos de iluminação, mas teme as alturas e volta para o seu lugar sombrio, uma lagarta com medo de voar como borboleta.
Gostaria que meu filho me perguntasse um dia:
--- Pai, o Sol desapareceu. Para onde foi? Ele volta depressa?
Eu responderia:
--- O Sol sempre volta, meu filho, apesar de todas as sombras.
O Sol de José a caminho do Egito:
Eis que apareceu um anjo do Senhor a José, em sonho, e disse:
Dispõe-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e permanece lá até que eu te avise,
porque Herodes há de procurar o menino para o matar.
Dispondo-se ele, tomou de noite o menino e sua mãe e partiu para o Egito
e lá ficou até a morte de Herodes,
para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor,
por intermédio do profeta: Do Egito chamarei o meu Filho.
Ouvir a voz interior, como José, também é um vôo, além das ilusões, até a verdade.
A intuição tem um sopro da divindade. Nela se encontram sinais antigos do grande renascimento de que os homens andam esquecidos. Ou temem. Porque é preciso morrer em vida para renascer num mundo desconhecido.
Aquele ego encardido, aquela velha personalidade mascarada com ilusões e mentiras devem virar pó. E que o vento carregue.
Eu sentia em mim os efeitos de uma bebida sagrada. E os demônios não me atormentavam mais.
Percorria suavemente o reino dos espíritos, como já faziam meus ancestrais há setenta e cinco mil anos atrás quando bebiam outras poções mágicas.
Dividia com os santos e os profetas um pequeno instante de sentir a presença de Deus em mim mesmo.
Minha consciência crescia na mesma proporção em que cresciam os efeitos do chá que bebi.
Em alguns momentos de êxtase, sentia a presença de uma força transcendental que cuida da Terra e de todas as suas criaturas.
Talvez fosse o mesmo sentimento dos sacerdotes da Antiga India que, há sete mil anos Antes de Cristo, através de uma bebida sagrada, uniam-se ao Grande Espirito regente de todas as coisas. Talvez fosse a mesma bebida presente entre os Mistérios de Eleusis, na Grécia Antiga, entre os monges do Tibete, nos cultos dos Incas e Astecas.
Só existe o Um. Não existe o dois. Pertencer ao Todo é tão reconfortante como o abraço, o primeiro grande abraço que a gente recebe quando volta de uma longa viagem, depois de reencontrar a rota que a alma havia perdido.
Ver para crer.
Eu via.
As visões, independentemente de minha fé, surgiam espontaneamente. Sentia meu corpo e minha alma sob bons cuidados.
Quando meu coração cresceu na frente dos meus olhos, era um alerta. E me arrependi de haver fumado tantos cigarros.
Era necessário um esforço a mais para que cada uma de suas batidas levasse, através das artérias, sangue a todo o corpo.
Um coração sob pressão, essa é a maior estupidez humana.
A fumaça impalpável dos cigarros e a realidade impalpável das preocupações tiram o coração de sua batida certa.
Lamento muito que cigarro e preocupação sejam velhos companheiros.
Por isso vos digo:
Não estejais ansiosos quanto à vossa vida,
pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber.
Nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai para as aves do céu,
que não semeiam,
nem ceifam,
nem ajuntam provisões nos celeiros.
E, no entanto, Vosso Pai celestial as alimenta.
Não sois vós muito mais do que elas?
Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja,
pode acrescentar um côvado à sua estatura?
E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos?
Olhai para os lírios do campo, como crescem.
Não trabalham nem fiam,
contudo vos digo
que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória,
se vestiu como um deles.
Pois, se Deus assim veste a erva do campo,
que hoje existe e amanhã é lançada ao forno,
quanto mais a vós, homens de pouca fé?
Portanto, não vos inquieteis, dizendo:
Que havemos de comer?
Ou: que havemos de beber?
Ou: Como que nos havemos de vestir?
(Pois a todas estas coisas os gentios procuram).
Porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso.
Mas, buscai primeiro o seu Reino e a sua Justiça
e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã;
porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo.
Basta a cada dia o seu mal.

14. A CORAGEM DE CAMINHAR
Caminhar entre o Bem e o Mal, sem destino definido. Essa é a vida, que não pára. O que pára é a morte.
Inseparáveis, o Bem e o Mal seguem as sombras do peregrino.
Eu reinventava o mundo com a Ayauasca.
E serenamente reiventava histórias ouvidas sobre o Bem e o Mal. Uma delas virou um filme nas minhas miragens.
A cena acontecia numa bela manhã.
Na mais remota estrada de terra de algum lugar deste mundo, um padre voltava de suas visitas montado em burro manso. Na casa de sitiantes que moravam até uns quatro quilômetros distantes da casa paroquial, o padre chegava anunciado pela algazarra das crianças, que gritavam para as mães e elas corriam a colher flores, fazer café, arrumar a mesa com doces e salgados. Era sempre assim: antes de se servir, o padre rezava três vezes a Ave Maria e uma vez o Pai Nosso, a primeira estrofe era dele, a segunda dos donos da casa.
Durante o café, com voz grave e jeito pomposo de santíssima autoridade, ele sempre repetia a batida promessa de acabar com o diabo na paróquia.--- O Coisa-Ruim está com os dias contados. Não demora, não demora. Continuem com suas novenas. Tenham fé.
Mas, naquela manhã, o diabo se pôs de um salto no caminho de volta do padre, bem no meio de uma encruzilhada:
--- Bom dia, seo Vigário.
Assustado, o padre fez o Sinal da Cruz três vezes e ergueu seu guarda-chuva, ameaçador:
--- Creio em Deus Padre! Não falo com Coisa-Ruim. Além do mais, esta não é hora de diabo andar por aí. Hora de diabo é de noite.
--- Desculpe, seo vigário, pelo adiantado da hora. Mas, é difícil encontrar padre de noite no meio da estrada.
O padre se atrapalhava com sua raiva e com as esporas. O diabo parecia muito bonzinho:
--- Calma, seo Vigário, calma. Cuidado para não cair.
--- O burro é manso, Coisa-Ruim.
--- Eu também, seo Vigário. Vim na paz de Deus.
--- Paz de Deus? Que blasfêmia é essa?
--- Desculpe, eu só queria ser gentil, seo Vigário.
--- Não use o nome de Deus em vão, Coisa Preta.
--- Sim, senhor.
--- E pare de dar nó em rabo de égua.
--- Sim senhor.
--- E não assanhe mais rapariga em beira de rio.
--- Sim, senhor.
Aquela humildade do diabo deu mais força à voz autoritária do padre:
--- E chispa já da minha frente!
--- Não, senhor.
A boca do padre espumou:
--- Como se atreve, Coisa Peluda? Pois, saia de banda, ou toco meu burro em cima.
--- Não faça isso seo Vigário, que eu mostro pro burro a minha fuça da noite. É a fuça que ele conhece. E o bicho vai desembestar por esses campos se rasgando em cerca de arame farpado e rasgando a batina do seo Vigário. Depois, quem é que recolhe as coisas que vão ficar penduradas por aí e remenda tudo? Acho melhor a gente ter uma prosinha. Apeie, seo Vigário.
O padre puxou escondido do bolso da batina uma lasca de fumo de corda e apeou do burro, já mascando. Cuspiu pra trás e falou baixinho:
--- Vade Retro, Boca Preta.
Puxou e amarrou o burro num tronco de paineira bem perto e se sentou à sombra. O diabo também.
--- Então, seo Vigário, o senhor quer acabar comigo?
--- Não tenho que lhe dar satisfações.
--- Só me diga sim ou não, por favor.
--- Sim.
Tristonho, o diabo baixou os olhos:
--- Acabar comigo... Ah, que pena eu sinto do seo Vigário.
O padre se exasperou:
--- Pena de mim? Mas, que petulância é essa?
--- O que vai ser do senhor sem mim?
--- Vai ser o que sempre foi.
--- Não vai, não, seo Vigário. Padre sem diabo por perto não dá certo.
--- Não aceito essa provocação. Que loucura. Eu vou é embora, seo Sombra Preta.
Ofendido, o padre fez uma cruz com os dedos indicadores e apontou para o diabo:
--- Nossa guerra começa agora nesta encruzilhada. Ou eu ou você!
Ergueu-se, o diabo também, mas só o padre tinha intenções de lutar. O diabo, não.
--- Sem violência, seo Vigário. Não é preciso. Vire essa cruz de dedos pra lá. Eu vou embora agora mesmo. Para sempre.
--- Como é que eu posso acreditar em promessa do diabo?
--- Não sei, seo Vigário. Só tenho esta minha palavra desacreditada. Está vendo aquele fim de estrada lá no alto do morro?
--- Sim, seo Pé Preto.
--- Quando chegar lá, o seo Vigário vai ver o sinal de meu fim.
Cabisbaixo, o diabo se despediu:
--- Até nunca mais seo Vigário!
E pegou a estrada.
Sem olhar para trás, com passos desolados, acompanhado pelo olhar atento do padre, andou um longo tempo até virar um quase nada no alto do morro. O padre esfregava os olhos para ver.
Então uma bola de fogo se fez no ar, seguida de um estrondo igual de trovão ao longe. Tudo foi visto e ouvido nas redondezas. E uma mulher na cozinha, outra na igreja, um homem na roça, outro na cidade, um velho sentado na praça, outro sentado na cama, um menino no alto da laranjeira, outro embaixo do pé, um cavalo no arreio, outro arriado, uma galinha arisca, outra depenada, um vira-lata correndo em volta da bola, outro em volta do próprio rabo, um passarinho de bico fechado, outro de asas abertas, um porco do chiqueiro pro mato, outro do mato pro chiqueiro, tudo que era mundo virou uma coisa só. E, pouco a pouco, o mundo arrodeou a frente da Igreja:
O padre acabou com o diabo?
O padre acabou com o diabo?
Antes que perguntassem pela terceira vez, o padre chega altaneiro no trote do seu burro.
Todos se ajoelham e ele grita a boa nova:
--- O que era para ser feito, feito está.
Bate o pó que ficara em sua batina ao se sentar no chão. O pó passava a idéia de luta brava, ele e o diabo a rolar pela estrada.
E um homem tocou os sinos, outro soltou fogos. E uma mulher puxou a Ave-Maria, outra o Pai Nosso. E uma criança queria banda de música, outra pirolito.
Na primeira missa de domingo, após o fim do diabo, não havia um só lugar desocupado na Igreja. E os que não puderam entrar --- e eram muitos --- ouviram das escadarias ou agrupados na praça um dos mais eloqüentes sermões do padre.
No coreto, a banda de música esperava o fim da missa e logo em seguida tocaria, a pedido do padre, um arranjo para dobrado de um dos trechos de Parsifal, de Wagner. Não era um trecho musical difícil, mas havia nervosismo, os músicos temiam errar e reliam as partituras, solfejando, pensando, solfejando, pensando. Depois da apresentação musical, queimariam fogos de artíficio e os fiéis carregariam o padre nos braços até a praça. E assim foi. E assim seria nos quatro domingos seguintes. Mas, não foi.
Faltou a eloqüência do primeiro sermão.
Pouco a pouco os fiéis deixavam de ir à missa. Mentiam em suas desculpas sem nenhum medo. O diabo não existia mais.
Os músicos da banda, por desaforo ou para provocar o diabo que não mais temiam, desafinavam ou erravam as notas propositadamente.
Ninguém mais carregava o padre depois da missa. Não havia mais fiéis com braços à disposição.
Entre três fogos de artifício, de dois só saiam fumaça.
Na contagem do dízimo, domingo a domingo, não dava nem mais para brincar de nove para Deus e um para mim. Só havia um para Deus. E no quarto domingo, nem para Deus havia.
Os fiéis trocavam nos domingos a igreja pela praça, onde cantavam, riam, dançavam.
Os sermões do padre só eram ouvidos pelo sacristão, que já resmungava e blasfemava sem medo do diabo.
Em abandono, desolado, o padre saiu certa manhã de segunda-feira montado em seu burro pelos velhos caminhos dos bons tempos. Quem sabe entenderia, no silêncio dos campos, os desígnios de Deus.
Nenhuma viva alma se ergueu à sua passagem.
Nenhum aceno.
Nenhuma prenda.
Só ele, o burro e a desesperança.
No meio desse grande nada, ele voltou a procurar as sombras da grande paineira onde se encontrara com o diabo.
Logo, um pássaro preto pousou num galho bem próximo de sua cabeça, imitou uma gargalhada grosseira que arrepiou a crina do burro e falou:
--- Bom dia, seo Vigário!
O padre pensou numa alucinação boba, vinda de suas preocupações. Foi chamado de novo:
--- Bom dia, seo Vigário!
Não foi difícil localizar o pássaro preto em meio ao verde da paineira. E o padre ficou a pensar em quem teria ensinado aquele passarinho a falar Bom Dia, seo Vigário. A voz não era estranha. E isso o intrigava. Nenhum pássaro preto aprende a falar sozinho. Só se for coisa do diabo.
--- Pois é.
O padre quase caiu do burro com aquela resposta a seus pensamentos.
--- Você é o diabo?
--- De férias, seo Vigário. Voando, cantando e fazendo imitação por aí
--- Mas, você não explodiu? E aquela bola de fogo?
--- Ah, seo Vigário, eu tenho meus truques.
--- Então, você está vivo de verdade?
--- Graças a Deus!
--- Não blasfeme nem fale o nome de Deus em vão, Coisa Preta!
Mas, o padre não tinha mais tanta raiva. E gostaria que tudo voltasse a ser igual aos velhos tempos.
--- O seo Vigário aceita um conselho?
--- Não aceito conselho do diabo, muito menos fantasiado de passarinho!
O padre olhou para o alto, para os quatro cantos do mundo e como não havia ninguém à vista, estendeu a conversa:
--- Diga lá, Coisa Preta!
O diabo, com muito jeito, começou sua prosa:
--- Gente sem medo do diabo neste mundo é a pior coisa pro mundo. O seo Vigário não percebeu que o Bem só é visto onde o Mal existe?
--- E vice-versa.
--- Isso mesmo, seo Vigário.
O padre, com o rosto vermelho, envergonhava-se do aparte. O diabo ria:
--- Seo Vigário, ouça meu conselho: faça seu sacristão anunciar de casa em casa, de porta em porta, que o diabo ressus...
--- Heresia, não, Coisa Fedorenta.
--- Reviveu. O diabo reviveu. Essa é a boa nova.
--- Boa nova, Coisa Encardida?
--- Desculpe, eu quis dizer que essa é a notícia ruim. Mande o sacristão dizer também que o seo Vigário está em luta brava com o diabo e espera todos na missa de domingo.
--- Não posso mentir a meus fiéis.
--- A sua causa maior são os fiéis ou a Igreja?
--- Eu vou pensar, eu vou pensar.
Para o lado do Inferno, lá voou o diabo.
Para o lado do Céu, o padre ainda não sabia mais com certeza qual era o caminho e deixou que o burro o levasse sem destino certo, num passo manso e preguiçoso de burro velho.
Cansado de andar a esmo, o burro empacou. E o padre o picou com a espora, porque não havia mais tempo a perder: ele se rendera aos conselhos do diabo. De volta à paróquia, ordenou ao sacristão para espalhar a notícia mais depressa que suas pernas preguiçosas: o diabo estava de volta soltando fogo pelas ventas. De porta em porta, de janela em janela, o sacristão bateu palmas, se benzeu e anunciou a volta do Coisa-Ruim.
No domingo seguinte, meia hora antes da missa, a igreja estava lotada.
Havia gente nas escadarias e em boa parte da praça.
E assim, a vida voltava à velha rotina, com seus anjos e demônios, com seus santos e pecadores, com a alegria e a tristeza, com as flores e as espadas, com os lobos e os cordeiros.
E o padre ria de um lado. E o diabo do outro.
E eu me lembrava da história com o espírito serenado.

16. AH, COMO É BOM SERENAR
Serenando, serenando, aquela força que tomara a minha alma e a fez navegar entre pensamentos e visões que condensavam em quatro horas um tempo sem fim, já me deixava de volta no lugar comum.
Numa pontuação mágica, acabava o efeito do chá.
Os olhares se cruzaram pela sala, sorrisos também e eu via Nunuí e Raimundo com simpatia jamais sentida.
Em seu lugar, aquele homem extraordinário, que dirigira a sessão, serenava ainda mais a sala, com um olhar de longo alcance, protetor, e eu pude saber que antes de sua bondade ele era só força, um dos mais temidos homens da floresta, de enfrentar a injustiça dos homens sem medo da morte e sem medo dos falsos poderes amparados em falsas leis.
Com o meu olhar parado, não percebi Nunuí, Raimundo e os demais a prepararem farta mesa, com pratos que chegavam da cozinha, que eu achei deliciosos e que me disseram um por um o que eram.
A maniçoba era um tipo de feijoada diferente. Em lugar do feijão, folhas de mandioca, que ficaram a ferver por seis dias, para perder as toxinas.
Experimentei o bolo de guaraná, bebi suco de açaí e araçá-boi.
A mansidão da madrugada e a farta refeição me deram doce sonolência e busquei um canto na varanda para me acomodar um tempo em minha leveza.
Fechei os olhos ao ouvir o convite do dono da casa a Nunuí:
--- Descansem até amanhecer.
Deixei que o silêncio da floresta me embalasse e senti que a imensidão de Deus começa no coração da gente e não tem ponto para acabar. E se uma onça me encontrasse nessa imensidão, não saberia dizer qual dois era eu, qual dos dois era a onça, nem se haveria dois no mesmo lugar.
A luz do Sol me tirou de um leve sono e deliciosa inexistência.
Raimundo e Nunuí me acordavam e sem preguiça me ergui e os acompanhei na despedida.
Só os de alma cega não vêem a luz que esse povo da floresta carrega.
Os sorrisos passavam esse recado e eu levava comigo uma porção de luz e uma porção de saudade. Até chegar ao hotel, alguma coisa doía em mim.
O que me alegrou um pouco foi a promessa de Raimundo, assim que desembarquei, de se encontrar comigo no estádio, no jogo entre São Paulo e Nacional.
Foi a mesma promessa de Nunuí quando desci do Fusca em frente ao hotel.
Então, fiz o convite para assistirem o jogo comigo da Cabine de Imprensa.
Eles ficaram felizes e orgulhosos.
Parei no café da manhã do hotel antes de subir ao quarto. A delegação do São Paulo já havia deixado as mesas. Muitos hóspedes, também.
Quando entrei no apartamento, para um rápido banho, Poy estava de saída.
--- Mas, onde é que você andou? Fiquei preocupado.
--- Desculpe, Poy, por não ter avisado nada.
--- Problemas?
--- Não, não.
--- Você vai ao jogo no nosso ônibus?
--- Não. Vou de carro com uns amigos.
--- Você almoça com a gente?
--- Não tenho certeza.
--- Tudo bem.

17. LEVE DE CORPO E DE ALMA
Não precisava me preocupar com o jogo, um amistoso sem maior importância para os leitores de São Paulo. O correspondente passaria as informações básicas para uma pequena nota na página de esportes: o resultado, as escalações dos times, público presente, gols. As matérias suplementares, que me exigiriam dedicação plena, eu pretendia redigir já no avião, de volta.
Aproveitei o jogo para conversar com Nunuí, enquanto Raimundo se deslumbrava com o time do São Paulo em campo.
--- Como você está se sentindo?
O sorriso de Nunuí já não me incomodava mais.
--- Nunca na minha vida alguma coisa mexeu tanto com meu corpo e com minha alma.
--- A Ayahuasca dá um banho na gente.
Nunuí era uma dedicada e entusiasmada pesquisadora das plantas da Amazônia, inclusive as mágicas.--- Os primitivos povos da floresta usavam a Ayahuasca para invocar os espíritos curandeiros. A bebida era o vinho dos espíritos.
--- Vinho?
Meu espanto veio da dificuldade que tive para beber. Nunuí achou graça.--- Claro que um bom vinho é mais gostoso de beber, mas o melhor dos vinhos não lava a alma como a Ayahuasca.
Concordei plenamente. Ela continuou:
--- A mistura do cipó Mariri com as folhas da Chacrona dá uma poção mágica, apuradíssima. Os índios e o povo da floresta conseguem assim uma ligação com sua história e com seus espíritos.
Eu acabara de conhecer essa ligação.
--- A luz acendeu?
Nunuí brincava comigo. Eu confirmei:
--- Era uma luz dourada. Entrei num mundo encantador, com visões, lembranças e sem nenhum limite entre imaginação e realidade. Nada sabia diferenciar. Nem queria. Estava muito claro para mim que tudo é uma coisa só e o que eu via do lado de cá era o que me via do lado de lá.
--- O homem saiu dessa dimensão quando começou a se distanciar da Natureza, na mais tola pretensão de auto-engrandecimento.
Novamente concordei com Nunuí.
--- A linguagem da Natureza é da maior simplicidade, mas a vaidade humana só convive com as coisas complicadas, que ela mesma cria para fugir de sua pequenez. Tudo que não se enquadrar nessa sofisticação, será reprimido ou vulgarizado. A Ayahuasca sobreviveu aos mais duros testes culturais, químicos, psicológicos e espirituais. Sua ação vai desde o efeito purgativo sobre o corpo até a liberação de emoções reprimidas, recordações, visões, tudo sem causar nenhum mal à saúde, nem criar dependência como uma droga qualquer.
Eu sentia em meu comportamento uma acentuada diferença para melhor. Estava mais alegre e com agradável confiança nos outros e em mim mesmo, uma coisa rara.
--- Estou mais esperto e amoroso, brinquei com Nunuí.
--- Indolência e amor não se combinam. Estar esperto, vivo é o que traz o amor, essa extraordinária força que os homens não sabem usar.
--- Não é um amor bobo o que eu sinto, Nunuí.
--- Claro que não. É o amor puro da Ayahuasca, que desperta os homens para sua antiga natureza, quando os deuses não se ocultavam deles nem os demônios. É o amor que fortalece os corpos, traz fé e coragem, ilumina e sela nossa imortalidade.
Nesse instante, Raimundo soltou um grito de gol, marcado pelo Nacional, mas que não mudaria o andamento do jogo, dominado tranquilamente pelo São Paulo, que já vencia por dois a zero. Não me lembro de quantos gols fez o São Paulo em sua vitória.
Diante do deslumbramento de Raimundo, que nunca sonhara em ver de perto uma grande equipe do Sul, perguntei:
--- Qual o jogador que mais está impressionando você?
Ele respondeu rápidamente:
--- Pagão.
--- Por que?
--- Porque ele joga quieto.
--- O que você quer dizer com isso, Raimundo?
--- Quero dizer que o que é quieto é de Deus. E o que é barulhento é do diabo.
--- E se você fosse jogador de futebol, Raimundo?
--- Eu ia querer em todos os jogos um minuto de silêncio. E eu pegava esse silêncio pra mim.
Provoquei:
--- Pelo que você está dizendo, os surdo-mudos seriam os maiores craques.
Ele riu:
--- Não. O silêncio de verdade não fica só no vão das palavras que a gente fala. Mas, também das que a gente pensa.
--- Onde você aprendeu isso, Raimundo?
--- No silêncio da floresta, quando tudo pára.
--- Tudo?
--- Tudo que é velho pára. Assim um tempinho de nada parado, mas que parece sem fim. Então, tudo que é novo vem. No meio do silêncio, que deixou o mundo antigo para trás, vem o canto novo do uirapuru. E vem a onça toda pintada de novo. E os macacos renascidos se inquietam porque uma onça nova vai passar. Só no silêncio tudo que é novo acontece e a vida se renova e a nossa cabeça não pesa nem se ocupa com coisas velhas.

18. CONTAR TUDO PRA QUEM?
Alguma coisa me incomodava depois do jogo e eu precisava falar com o Poy. Mas, me questionava se devia ou não. A objetividade do Poy talvez não combinasse com coisas impalpáveis e eu estava a flutuar. Mas, só o Poy teria minha credibilidade se concordasse ou não com certas intuições que me vieram sob efeitos da Ayahuasca e também da conversa com Raimundo.
O Jurandir, que eu admirava muito, nunca diria nada que me contrariasse, para não perder o seu sorriso nem tirar o meu. Era seu jeito de levar a vida. E nas provocações que fazia aos adversários em campo havia muito humor, nenhum rancor. Mesmo diante de Pelé, Jurandir passava seu tempo sem bola com um sorriso. E Pelé abrandava sua austeridade de rei e sorria também.
Enfim, sobrava apenas o Poy, porque não estaria à vontade com mais ninguém. Nem Pagão, nem Prado, os goleiros Suli e Raul Plasman, Nenê, Faustino, Efraim, Osvaldo Cunha. Nenhum deles.
Voltei do estádio com o ônibus da delegação do São Paulo.
Expliquei a Raimundo e Nunuí que precisava falar com o Poy.
Eles se despediram muito felizes na Cabine de Imprensa e prometeram estar no aeroporto na manhã seguinte.
Sentei-me ao lado do Poy no ônibus.
Os jogadores, depois das entrevistas em campo, da algazarra dos visitantes no vestiário e do banho atropelado, estavam calmos e quietos.
Poy me interpelou:
--- Então, o que aconteceu? Você está com o olhar diferente. Sabe que fiquei realmente preocupado com a sua ausência?
--- Foi uma noite muito especial.
Poy sorriu:
--- Estou percebendo.
Poy era de muita discrição, não se alongou.
--- Então, diga amigo.
--- Poy: tenho uma idéia para desenvolver um trabalho, mas só depois de ouvir você continuo ou não.
--- Obrigado pela confiança.
--- Quando podemos falar?
--- Depois do jantar, que tal? Existe um lugar bem sossegado em frente ao hotel. A gente se acomoda num banco por lá, aproveita a brisa da noite e conversa. Tudo bem?
--- Tudo bem.
Saimos do hotel logo após o jantar.
Ficamos algum tempo sentados, em silêncio, contemplativos, sem pressa.
--- Amigo, amigo, não tempos muito tempo.
Poy apontava para as nuvens negras que pairavam sobre Manaus e faziam a noite mais escura. E algumas folhas caídas já rodopiavam no chão, varridas por um vento de chuva.
--- É o seguinte, Poy: acho que o grande craque de futebol é aquele que entra num silêncio profundo assim que põe os pés em campo.
--- De onde você tirou essa idéia?
--- De uma conversa que tive durante o jogo do São Paulo e do lugar onde estive ontem à noite.
--- Conversa com quem?
--- Um amigo que fiz por aqui.
--- E que lugar é esse onde você foi?
Eu contei quase tudo ao Poy e uma frase, a mesma, acompanhava as suas reações:
--- Meu Deus!
--- Então, amigo Poy, o que você acha?
Ele sorriu.
--- Faz tempo que eu sei disso.
--- Por que você nunca falou nada, Poy?
--- Como é que eu iria falar do silêncio profundo dos grandes craques dentro de campo? Os seus amigos, os jornalistas, que vivem na tagarelice, nada entenderiam nem me poupariam.
Contei ao Poy uma das minhas visões provocadas pela Ayahuasca, que combinava com a intuição de Raimundo. Um grande círculo era formado por narradores e repórteres esportivos numa algazarra verbal que talvez pudesse ser comparada à da Torre de Babel. Mas, o vozerio ficava do lado de fora. Dentro do círculo, o silêncio era absoluto. E envolvido por esse silêncio estava Leonidas da Silva, um dos maiores craques do futebol brasileiro em todos os tempos e que eu carregava em meu bolso de menino como figurinha carimbada.
--- É uma analogia correta. Eu diria que o circulo é pequeno, com o raio de um metro ou nem isso. Os craques ou heróis em todos os campos de batalha nada percebem além do misterioso silêncio que os envolve nesse círculo. O alarido da torcida, o som das trombetas, o grito dos técnicos, o urro dos leões, tudo é uma tênue referencia externa de um profundo silêncio interior.
--- Todos sentem assim, Poy?
--- Não. Estamos falando de craques e de heróis.
--- E o jogador comum?
--- Esse é pego pelo barulho de fora e não chega a lugar nenhum com luz própria. Se acertar o primeiro lance, recolherá os aplausos da platéia para ser o melhor do jogo. Se errar, terá medo da segunda vez e se esconderá em jogadas medíocres, previsíveis, sem risco. Entre os gladiadores, a vitória e a vida não escolhiam o mais forte, mas o mais quieto em si mesmo, soberano em seu reino do silêncio, onde toda a ansiedade humana não tem lugar.
--- Poy, você sentiu esse silêncio como goleiro do São Paulo?
--- Muitas vezes. Principalmente, na cobrança de um penal. Se o silêncio em mim fosse pleno, tinha certeza de que faria uma bela defesa. Dentro desse silêncio, eu ouvia tudo em volta. Mas, os sons e as vozes ficavam distantes e separados de mim, como se tudo vibrasse delicadamente atrás de uma espessa cortina de veludo. Eu sabia quando tinha plenamente esse silêncio ou quando o perdia por uma distração qualquer, às vezes, a simples voz estridente de um repórter de rádio atrás do gol. Num jogo contra o Corintians, no estádio do Pacaembu, o juiz marcou um penal contra o São Paulo. O Baltazar, centro-avante do Corintians, apanhou a bola para a cobrança. Ele era um artilheiro extraordinário pelos gols que fazia de cabeça. Ganhou o apelido de Cabecinha de Ouro e havia até um Samba de Carnaval que exaltava essa habilidade:
Gol de Baltazar
Gol de Baltazar
Salta o Cabecinha
Um a zero no placar
Não consegui evitar o riso pelo descompasso e desafinação de Poy. Ele não se importou:
--- Olhei para o Baltazar e ele era uma sombra diante do meu silêncio. E uma grande sombra silenciosa era o Pacaembu lotado. Eu me sentia com a segurança plena de estar só e ser dono de mim. Sabia que a bola viria rasteira no meu canto esquerdo, rente à trave. Sabia que um toque de dedos a desviaria pela linha de fundo. Sabia que deveria contar até três depois do apito do juiz para, então, saltar. O silêncio me revelava tudo e me amparava. Mas, desgraçadamente, a voz esganiçada do repórter de rádio, atrás do gol, a falar com o narrador na Cabine de Imprensa invadiu numa fração de segundo o meu silêncio. Ele gritava para o narrador: Agora é com você! É com você! Essa fração de segundo fez a diferença: Gol de Baltazar. Os grandes heróis também caem numa fração de segundo de desatenção, porque o silêncio se faz e é invencível quando nada de fora nos atinge e temos o misterioso poder da total inteireza em plena solidão.
O sotaque de Poy dava a sua fala o peso dramático de um tango argentino e eu gostava.
--- E o Pelé, Poy?
--- Ele é a maior seriedade dentro do maior de todos os silêncios. Fora de campo é o mais comum dos mortais, mas uniformizado para o jogo, assim que pisa no gramado, ele é engolido por um impenetrável silêncio. Quem viu seus olhos bem de perto percebeu que estavam firmes e parados, naquela quietude do último olhar do tigre antes de saltar sobre sua presa.
--- E Garrincha, Poy?
--- Garrincha brinca dentro do silêncio e é capaz de cantar para si mesmo, sem se importar com o adversário ou com a torcida, um canto assim de peregrino absolutamente livre e em paz em sua solidão. Os grandes heróis dos campos de futebol ou campos de guerra são protegidos em seu silêncio do barulho de um mundo externo e confuso, onde o poder corrompe, ameaça, mata, mas garante o pão e o circo para a plebe continuar mansa e indiferente ao destino de seus heróis.
Esse era o silêncio que vislumbrei com a Ayahuasca.
--- Poy, será que Deus é esse silêncio que faz os heróis e os grandes craques?
--- Ah, não, eu só entendo de futebol. De Deus, entendo muito pouco. Mas, como é mesmo o nome do chá que você bebeu?
Eu sorri na resposta:
--- Ayahuasca.
Poy colocou a mão sobre meus ombros:
--- Duvido que seu jornal publique qualquer coisa a respeito.
--- Eu também duvido.
Ficamos os dois em profundo silêncio.
E quietos voltamos para o hotel quando os primeiros pingos da chuva começaram a cair.


19. O FIM DO MEU MEDO MAIOR
Na minha velhice eterna eu me lembro muito bem da manhã em que da janela do DC-3 vi Nunuí e Raimundo a acenarem adeus.
Eu sempre vi nas despedidas, qualquer despedida, um aceno da morte. Mas, não a temia mais. O centro-avante Prado logo percebeu:
--- O que aconteceu com você?
Sorri, mas não contei.
Eu sabia, graças a Ayahuasca, que teria de optar entre duas mortes: a falsa ou a verdadeira.
A morte falsa vem de uma vida falsa, a dos mortos-vivos.
A morte falsa chega todos os dias na casa de quem perdeu seus sonhos. Às vezes, no fim da tarde, às vezes no meio da noite, ela vem trazer toda a desesperança. E ao se contemplar uma foto de um momento feliz, sob a única luz acesa da casa, sente-se a dor da morte falsa numa saudade que não é a do reviver, mas a de ter perdido a vida.
Na morte falsa, os defuntos caminham entre sombras do passado. Lentamente eles caminham e a vida pára em cada passo.
Uma flor no vaso perde sua razão de ser sob o olhar morto de quem não vê mais. E as mãos que um dia a tocaram, agora apalpam o vazio, inseguras, incapazes de um afago ou de se erguerem aos chamados do mundo.
Na morte falsa, sempre existe um copo dágua na cabeceira da cama. Mas, ele não será tocado. E a água, como um pão amanhecido, ficará em triste quietude e esquecimento até que alguém abra as cortinas, se houver mais alguém.
Se a chuva de verão bater nos telhados, o corpo frio da morte falsa vai perambular pela casa à procura do guarda-chuva, que estará no mesmo lugar onde foi esquecido. Talvez o guarda-chuva esteja um pouco desbotado, porque a umidade das coisas paradas desfaz o viço e a cor. E no mesmo lugar onde não foi encontrado ele vai ficar, porque nada há a fazer em mais um verão, nem antes nem depois da chuva.
O pêndulo do relógio da parede, que vai e vem, vai e vem, cria horas incertas e desnecessárias. Se existe algum compromisso é com os comprimidos de três em três horas da receita médica.
Na morte falsa os pijamas saem do guarda-roupa e andam pela casa sem ninguém. Se houvesse alguém, os botões do casaco não estariam em casa errada e as barras das calças, quase caídas, não varreriam o chão.
Nos ligeiros sonhos da tarde, após o almoço, ou em horários incertos da noite, passam cenas da vida, onde alguém que não existe mais é o personagem principal de uma ilusão de si mesmo. E quando se sai dos sonhos para o pesadelo de acordar, sem saber qual o dia nem qual hora, os olhos se fecham na espera angustiada de novos sonhos. Mas, eles não vêm. É preciso levantar, porque a morte falsa gosta de arrastar chinelos pela casa.
Gritos silenciosos, profundos, de solitário desespero buscam anjos ocultos, que talvez possam revelar o caminho a seguir no deserto criado pelos falsos guias da existência humana.
Mas, os anjos só aparecem se, no limite da loucura, houver a coragem de rasgar com mãos firmes cada uma das fantasias a respeito de si mesmo e se prostrar de joelhos diante do nada, sem um fio de esperança. Então, a morte verdadeira chegará, varrendo tudo que ficou para trás e abalando todos os mecanismos de defesa e ataque que o homem criou com seu orgulho.
Nessa morte verdadeira é que está a vida, a mais plena vida, jamais suspeitada pelos mortos-vivos.
É quando se percebe que toda a voracidade dos homens pelo acúmulo de bens e poderes não passa de um Jogo de Amarelinha em que os que pensam que chegaram ao Céu apenas aumentaram mais um pouco o tamanho de seu Inferno.
Não me confundam nesta minha velhice eterna com um reles pregador. Apenas estou sugerindo que se tenha a coragem de jogar fora esses valores com os quais os homens limitaram a vida a uma estreita e curta passagem, onde, sufocados, oprimidos, arquejantes todos se esquecem de que nesse pequeno e ilusório vão do Universo a vida é em vão. Relevem o jogo de palavras, em consideração à minha velhice eterna.
Poy, ao meu lado na poltrona do DC-3, incomodou-se por eu estar tanto tempo quieto, com o olhar parado na direção da janela. Eu estava a me lembrar de alguns versos de Fernando Pessoa.
--- O que está acontecendo?
--- Poy: eu acho que morri.
E ele não conseguiu evitar uma gargalhada.
--- E quando você vai ser sepultado?
--- Já fui.
Poy ficou sério, um pouco espantado:
--- O que está acontecendo?
Eu sorri, para acabar com seu espanto:
--- Vou escrever tudo pra você.
--- Não é preciso, amigo, ter um trabalho desses.
--- Mas, eu quero. Vou ficar quietinho aqui no meu canto escrevendo. Só um rascunho. Passo a limpo quando estiver em São Paulo e mando pra você. Tudo bem?
--- Tudo bem. Você quer que eu mude de lugar?
--- Não, não é preciso.
E o Poy, sem desviar uma vez sequer o olhar para as minhas anotações, me deixou em profunda paz.
No aeroporto de Congonhas, depois de um forte abraço de despedida, ele me perguntou:
--- Então: escreveu tudo?
--- Acho que sim. Ainda esta semana o texto final estará com você. Certo?
--- Mas, é claro amigo.

20. SEM PALAVRAS
Percebi em duas madrugadas, na releitura do texto, que havia muita bobagem.
Comecei a tratar de seu conteúdo sem dó de qualquer frase ou palavra, mesmo que tivesse belo efeito.
Uma a uma, as frases ou palavras começaram a parecer ecos inúteis do desespero humano em confirmar uma vida que foge pelos vãos de toda a lógica que tenta torná-la real.
As palavras, os versos, os tratados são alicerces de algodão que não resistem ao primeiro vento forte da realidade. E a realidade assusta muito porque é intocável pela palavra, essa manifestação barulhenta do pensamento.
Em meio a esse fogo de palavras cruzadas, os homens correm de um lado para o outro e se atropelam em mal-entendidos e desavenças.
Sempre existiu na relação humana o segundo sentido das palavras e assim é possível ocultar a falsidade que está no olhar, mas que não se vê, porque raros são os momentos em que os homens se encaram.
Quanto mais rico for o vocabulário de um homem ou de uma nação, mais pobre será a verdade.
As palavras são uma benção quando compõem a frase Eu te amo.
Mas, quase sempre são um desperdício quando se multiplicam em torno desse sentimento original e o sufocam.
Antigamente, muito antes de minha velhice eterna, as donzelas se erguiam na ponta dos pés para ouvir de altas janelas a declaração de amor feita das calçadas. E quanto mais longa fosse a declaração mais dor nas pernas elas sentiam e mais o amor se dissipava entre palavras vãs e a posição incômoda.
É noite. Chove. Estou só. O que é preciso dizer mais? Quando as palavras se estendem sobre um sentimento, ficam as palavras, vai-se o sentimento.
Este mundo mambembe foi assentado por espertos governantes e religiosos em cima de palavras ocas. O mundo seria diferente e melhor sem eles e sem elas.
O Sim e o Não definem os que se alinham com a força superior.
O Talvez é próprio daqueles que ainda não sentem firmeza em seus passos e seguem titubeantes pela vida.
A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Não cabe nenhum Talvez nos espíritos de verdade.
O Talvez de nossa indecisão é o espaço aberto para as palavras que a força inferior usa para assumir o que não lhe cabe.
Eu me lembro, nesta minha velhice eterna, de uma entidade Inca que se postou diante de mim numa das miragens que tive ao beber a Ahyauasca. Ele me fitou de frente, em total quietude, mas seu olhar devassou meu espírito e varreu todas as palavras em que me amparava para confirmar minha existência, meus sonhos, minhas realizações.
Aquela entidade carregava no olhar a perfeição do espírito que em vão os invasores espanhóis tentaram destruir impediosamente. Interiorizado naquela entidade Inca havia um Deus intocável. E o Paraíso que lhe foi arrancado com extrema violência agora estava em sua alma, que freqüentava um mundo superior.
Diante do olhar daquela entidade nada sobrou. Nem meu nome. A lousa de meus tempos de escola estava apagada. E o pó do giz caiu no meu colo para que eu assoprasse. Não era mais ninguém. Meu corpo tremeu em angustiante insegurança e eu busquei palavras para me apoiar. Mas, como elas não existiam mais, me entreguei à solidão. Digo que foi o momento mais grandioso de minha vida. Descobri que meu espírito era silencioso e forte como o olhar que me fitou. E me deixei levar pela luz que ele irradiava.
Nada levei ao Poy no nosso reencontro, dias depois.
E tinha escrito tanto.
Deixei na gaveta todas as laudas.
Mas, nada precisei explicar.
Poy entendeu o meu silêncio.

21. Eu me perdi de José Poy pela vida.
De tantos me perdi.
Jamais imaginei que minha velhice eterna me apanharia certa tarde a suspeitar que as varandas vazias, que via além da vidraça de minha sala, eram o palco do desencontro de homens e mulheres perdidos no mundo e perdidos de si.
A luz do Sol passava entre nuvens de chuva, mas tocava apenas algumas janelas, e elas doíam mais que um rosto triste saído das sombras.
Eu me atrevia a pensar que a maior desgraça humana não era a falta do pão, mas da transcendência. O corpo e a mente que não se elevam até o espírito não aparecem nas varandas para contemplar o Infinito. E nada será revelado sobre o tempo que não tem tempo, sobre o meio sem começo nem fim, sobre a parceria eterna da escuridão e da luz, sobre o silêncio que fica depois que ladram os cães, sobre os abismos azuis onde as estrelas peregrinam assim como nós.
Numa miragem da Ayahuasca eu vira que a escada para alcançar o espírito era feita de cipó. Confesso que não foi nada confortável minha escalada, principalmente por que já sabia pela própria vida que descer era muito mais fácil.
Eu tremi, senti enjôos, tonturas, até chorei. Claro que perdi o medo de alturas nesta minha velhice eterna. Com a extraordinária força da Ayahuasca apanhei um pouco dessa leveza divina que torna medíocres as nossas concepções de tempo e espaço e muito pobres a nossa percepção de formas, cores e sons. A Realidade passa bem longe desses homens enredados em si mesmos pela ignorância, velha parceira da arrogância. No inconsciente se esconde uma entidade magnífica. Quando ela reaparece, trazida pela transcendência, o mundo se transforma, porque ela encontra Deus em si e em seus semelhantes.
Enriquecer o espírito, ampliar a visão, manifestar a presença de Deus talvez seja visto como loucura. Mas, eu garanto que é uma deliciosa loucura, já vivida por tanta gente há tanto tempo. No olhar de Cochise, o grande líder Apache, havia o brilho da transcendência. E também havia no olhar de Sócrates, a revelar a essência humana em sua plenitude. Os que ficaram no andar de baixo não o perdoaram, por que se sentiam ameaçados pela luz que rondava suas sombras. Acusado de subversivo e corruptor da juventude, Sócrates foi condenado a beber cicuta em sua cela. Não temeu a morte em nenhum instante e nos relatos de Platão percebe-se que a sua leveza de viver veio com o conhecimento de si mesmo, o ponto de partida para o conhecimento do universo divino. A transformação e o enriquecimento do espírito fazem milagres. É o abençoado momento em que acontece a união absoluta e completa com toda a Criação. E cura-se o corpo, cura-se a alma. O tipo de alma que nos cabe, segundo Aristóteles, é a responsável pela razão e pela capacidade de elevação até o Eterno, quando passamos a conhecer e ser todas as coisas e assim lhes damos vida. Nada existe fora do homem que não esteja dentro dele. Nessa dimensão universal, o homem encontra Deus e a virtude dentro de si mesmo e passa a viver contemplativamente. É a transcendência, possível a um estado de consciência acima de todas as palavras, e que se manifesta numa profunda e silenciosa união com o Universo. É o momento em que as crianças se encantam e sorriem. E os santos dançam. E Arquimedes sai nu às ruas a gritar Eureca. Ele descobrira o invisível, que sempre espera o momento de atravessar as cortinas como a luz do Sol e acordar os que estavam dormindo. Acabam os pesadelos de um mundo que só é mal visto quando o olhar não é do espírito.
O corpo e a mente são os templos onde o espírito procura o seu espaço para brilhar na eternidade. Ele vem de longe e tem um longo caminho a percorrer, até que o homem o reconheça, se afine com ele e fique acima do valente ou do covarde, da vítima ou carrasco, nobre ou plebeu, devasso ou imaculado, honesto ou velhaco, malicioso ou ingênuo. Mas, ninguém sabe até quando o espírito vai ter paciência diante dos homens que ainda esperam o Sétimo Dia para descansar e hesitam em largar pelo caminho as coisas que lhe pesam. A grande lição da Ayahuasca é a de que o espírito espera a mesma leveza do poeta e do carpinteiro e que eles modelem o mundo sem aflição, medidas erradas ou versos tortos. Na presença do espírito, corpo e mente não se enfraquecem e acontece a viagem até um mundo que andava escondido embaixo do travesseiro. Lá, no inconsciente de todos os sonhos e pesadelos, está a razão de nossa existência, que é o espírito que nos une a todo o Universo. Deixamos de ser entidades neuroticamente despencadas num mundo sem fundo depois que recuperamos a nossa memória divina, aquela que abrange todas as coisas além das aparências triviais de causa e efeito. Um cão que ladra não é apenas um cão que ladra, mas um sinal de que o Universo não é mais o mesmo e nunca será. Aqueles que compreendem o significado total da vida não lamentam a impossibilidade de devolver às árvores a folha de outono que caiu. Pisar no vazio com toda a firmeza, esse é o destino dos homens que se alinham com o espírito e moram no silêncio. Nesta minha velhice eterna, me amparo em Carl Gustav Jung para dizer: existe um lugar e um momento em que o homem encontra o sentido de sua existência, aceita sua condição humana e se une a todo o Universo. Então, os males são amenizados ou eliminados pelo renascimento de valores espirituais próprios da natureza humana.
--- A Ayahuasca traz de volta nossa memória divina. É a memória do mundo. E é só para recordar que a gente bebe.
Não havia muita diferença entre as palavras de singelos sábios da Floresta e as de Jung.
--- Recordar para nossa gente não é lembrar o que passou, mas pegar de volta todo o tempo e a idade que a gente tem dentro dele.
Nesta minha velhice eterna, se me pedissem a definição de espiritualidade, eu diria que se trata da visão total da existência, que inclui o que parece, mas não é e o que não parece, mas é.
A revelação é um momento mágico que acontece em meio à sofisticação de um laboratório de pesquisas ou na aridez do deserto de uma peregrinação mística. Em ambos os casos, desaparece aquela entidade ilusória, feita de pensamentos alheios e de imagens refletidas e surge a outra real existência.















O AUTOR

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miguelterra@yahoo.com.br Profissional de Jornalismo, Propaganda, Magistério, Música, Literatura, TV e Teatro. Em jornalismo, atuou como redator, editor e cronista dos jornais Folha de S. Paulo e Raposa Magazine, da Fundação Cultural de Curitiba. Em Música, trompetista e jazzista. Em Propaganda, atuou no depto. de criação das agências DPZ, Rino Publicidade, Almap/BBDO, Leo Burnett, Norton Publicidade, Grey Advertising, com prêmios nacionais e internacionais de criatividade. Teatro: autor da peça "Não faz már, não tem`portância", uma dedicatória a Adoniran Barbosa. Magistério: Lecionou na Faculdade Anhembi e UNIP. TV: Roteirista da TV Cultura e SBT (programa de pesca ecológica). Literatura: Autor dos livros "Anjo e Demônio na Propaganda", "São Paulo de Todos os Milagres", "Jundiaí do Canto do Japi", "Futebol que Lava a Alma", "Sob as Sombras do Bem e do Mal" e "A Arte da Comunicação, Musicalmente Falando". miguelterra@yahoo.com.br